A misantropia impera na sociedade de hoje. As pessoas se odeiam umas às outras. Isso está suficientemente claro para quem já observou, por exemplo, o conteúdo presente em boa parte das produções provenientes da chamada "indústria cultural". Vide, por exemplo, o que usualmente constitui tema dos filmes mais populares. Ei-lo: multidões fugindo em pânico, perseguições de carro, sequestros, tiroteios, chacinas, extermínios, guerreiros e soldados sanguinários, incêndios, laboratórios destruídos, prédios e pontes desmoronando, estilhaços e destroços arremessados por explosões colossais, cidades inteiras sendo assoladas, maremotos aberrantes inundando o mundo, alienígenas hostis invadindo a Terra, guerras apocalípticas extinguindo a humanidade, enfermidades virais convertendo pessoas em zumbis canibais... por que tanta gente se satisfaz em assistir a esses espetáculos? Porque odeiam seus semelhantes e a sociedade, é claro. Se, por exemplo, as pessoas em geral admirassem a sociedade e estivessem satisfeitas com ela, é óbvio que não achariam o conteúdo desses filmes tão legal, pois eles exibem usualmente situações em que a integridade dessa mesma sociedade está ameaçada.
Não devemos esquecer dos filmes de terror e seus assuntos: esfaqueamento, esfolamento, torturas, sadismo, loucura assassina, mutilações, demônios, sacrifícios etc. Os longas desse gênero raramente se tornam um grande sucesso de bilheteria, mas existem muitos filmes desse tipo que já alcançaram alguma popularidade, especialmente entre jovens e adolescentes - a maior parte do elenco desses filmes é composto de jovens. Convenhamos, pessoas que apreciam esse gênero de filme definitivamente não nutrem grande afeição por seus semelhantes.
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud diz:
"Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um
ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. – Homo homini lupus. Quem, em face de toda sua experiência da vida e da história, terá a coragem de discutir essa asserção? Via de regra, essa cruel agressividade espera por alguma provocação, ou se coloca a serviço de algum outro intuito, cujo objetivo também poderia ter sido alcançado por medidas mais brandas. Em circunstâncias que lhe são favoráveis, quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação, ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem, a quem a consideração para com sua própria espécie é algo estranho. Quem quer que relembre as atrocidades cometidas durante as migrações raciais ou as invasões dos hunos, ou pelos povos conhecidos como mongóis sob a chefia de Gengis Khan e Tamerlão, ou na captura de Jerusalém pelos piedosos cruzados, ou mesmo, na verdade, os horrores da recente guerra mundial,quem quer que relembre tais coisas terá de se curvar humildemente ante a verdade dessa opinião."
E ele completa:
"A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio de energia. Em conseqüência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas. Daí, portanto, o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade, daí a restrição à vida sexual e daí, também, o mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo, mandamento que é realmente justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem. Apesar de todos os esforços, esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito."
O célebre cientista nem precisou testemunhar a segunda guerra (ainda mais terrível que a primeira) para dar sua opinião. Nas passagens seguintes, Freud complementa seu ponto de vista, e dirige-se aos comunistas.
"Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho para nos livrar de nossos males. Segundo eles, o homem é inteiramente bom e bem disposto para com o seu próximo, mas a instituição da propriedade privada corrompeu-lhe a natureza. A propriedade da riqueza privada confere poder ao indivíduo e, com ele, a tentação de maltratar o próximo, ao passo que o homem excluído da posse está fadado a se rebelar hostilmente contra seu opressor. Se a propriedade privada fosse abolida, possuída em comum toda a riqueza e permitida a todos a partilha de sua fruição, a má vontade e a hostilidade desapareceriam entre os homens. Como as necessidades de todos seriam satisfeitas, ninguém teria razão alguma para encarar outrem como inimigo; todos, de boa vontade, empreenderiam o trabalho que se fizesse necessário. Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista; não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa. Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável. Abolindo a propriedade privada, privamos o amor humano agressivo de um de seus instrumentos, decerto forte, embora, decerto também, não o mais forte; de maneira alguma, porém, alteramos as diferenças em poder e influência que são mal empregadas pela agressividade, nem tampouco alteramos nada em sua natureza. A agressividade não foi criada pela propriedade. Reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade ainda era muito escassa, e já se apresenta no quarto das crianças, quase antes que a propriedade tenha abandonado sua forma anal e primária; constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas ( com a única exceção, talvez, do relacionamento da mãe com seu filho homem). Se eliminamos os direitos pessoais sobre a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens que, sob outros aspectos, se encontram em pé de igualdade. Se também removermos esse fator, permitindo a
liberdade completa da vida sexual, e assim abolirmos a família, célula germinal da civilização, não podemos, é verdade, prever com facilidade quais os novos caminhos que o desenvolvimento da civilização vai tomar; uma coisa, porém, podemos esperar; é que, nesse caso, essa característica indestrutível da natureza humana seguirá a civilização."
"Evidentemente, não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A vantagem que um grupo cultural, comparativamente pequeno, oferece, concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos, não é nada desprezível. É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. Em outra ocasião, examinei o fenômeno no qual são precisamente comunidades com territórios adjacentes, e mutuamente relacionadas também sob outros aspectos, que se empenham em rixas constantes, ridicularizando-se umas às outras, como os espanhóis e os portugueses por exemplo, os alemães do Norte e os alemães do Sul, os ingleses e os escoceses, e assim por diante. Dei a esse fenômeno o nome de ‘narcisismo das pequenas diferenças’, denominação que não ajuda muito a explicá-lo. Agora podemos ver que se trata de uma satisfação conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão, através da qual a coesão entre os membros da comunidade é tornada mais fácil."
Os exemplos apontados por Freud ilustram a xenofobia. Ele saberia nos explicar também a "rivalidade" entre clubes de futebol pertencentes ao mesmo estado, ou a estados vizinhos, ou a países vizinhos.
Um exemplo interessante da "hostilidade contra intrusos" é o tal "trote" que alguns dos universitários "veteranos" reservam para os "calouros". É verdade que nem sempre ocorrem abusos, mas não são raros os registros de trotes agressivos. O trote foi criminalizado.
E o que seria essa "agressividade que espera uma provocação"? Quando, por exemplo, uma pessoa, a caminhar na rua, se choca (suavemente e sem ter, aparentemente, a intenção) com uma pessoa estranha, de uma maneira tal que esteja fora de dúvida que a culpa deva ser imputada à primeira pessoa, esta quase sempre pede desculpas à segunda pessoa. Sabemos que esse pedido de desculpa não é uma solicitação propriamente dita. O "desculpa!" proferido em tais ocasiões constitui apenas a marca de um hábito, de uma convenção. A segunda pessoa não deveria conceder qualquer atenção a um acidente tão insignificante; entretanto, ela concede, pois exige que a outra pessoa, culpada, se retrate. Esta decide atender às exigências, na espera de que a outra não utilize o acidente como uma "provocação". Uma situação como essas abre, para a segunda pessoa, a possibilidade de ela obter uma "provocação", um pretexto para que ela faça recair sobre seu próximo a sua hostilidade. Quando, por exemplo, um acidente insignificante desse tipo ocorre entre uma pessoa e um poste, tal pessoa ignora completamente o ocorrido e segue em frente. Mas, como ela vive a espera de "provocações", não ignora situações como a primeira. Uma vez que o choque acidental entre pessoas que caminham na rua é muito frequente e que, além disso, quase todas as pessoas vivem a espera de uma "provocação", a interseção desses fenômenos torna necessária a introdução de algum sinal (o "desculpa!") que possa ser exibido por todos e que represente a reconciliação dos indivíduos envolvidos na situação.
Talvez algum visitante deste blog esteja duvidando de que a nossa sociedade esteja realmente imersa numa atmosfera de medo e tensão. Certamente, parece-nos, à primeira vista, que não está, pois percebemos frequentemente, por exemplo, as pessoas exibindo sorrisos quando estão na presença de outras. Como o sorriso exprime o estado de satisfação, poder-se-ia concluir daí que muitos cidadãos ainda encontram grande satisfação na esfera da socialização. Ora, caro visitante deste blog miserável, você sabe muito bem que boa parte (talvez a maioria) destes sorrisos são falsos: são caretas mecanicamente articuladas que cada pessoa exibe a fim de que seu companheiro pense que sua presença está sendo agradável. No cotidiano, a principal função dessa careta denominada sorriso é fazer nosso colega acreditar que estamos contentes com a sua presença. Quando estamos falando com alguém cuja afeição queremos muito obter (ou manter), sempre tomamos o cuidado de exibir para ele sucessivos sorrisos (a taxa segundo a qual esses sorrisos são convocados, como também a gravidade e a duração de cada um deles, é decidida conforme as circunstâncias). Quando essa pessoa olha para nossa cara, nós fazemos a referida careta, a fim de que ela (a pessoa) acredite que está sendo agradável. Bem, pelo menos é assim que eu faço, e sempre dá certo.
Aquele sinal feito com as mãos, consagrado pelo uso, caracterizado ao se erguer o dedo polegar e encostar a extremidade dos demais dedos na palma, é exibido por nós, na presença de uma pessoa, quando queremos fazer parecer que não guardamos nenhum rancor, que não consideramos tal pessoa como uma inimiga. O gesto significa "está tudo bem! você não é meu adversário". Esse gesto, como também esse "tudo bem" proferido quando se quer "cumprimentar", é, enquanto expressão da convenção, um recurso que a cada cidadão convém recorrer quando ele quer comunicar a outro o seu (suposto) estado de não-hostilidade para com este companheiro. Este gesto é o sinal da não-hostilidade.
Ainda sobre o sorriso, notamos que, em anúncios publicitários (na televisão ou nos outdoors), são exibidas sempre pessoas sorridentes em posse (ou fazendo uso) do produto (ou do serviço) que deseja-se vender (ou disponibilizar). Os publicitários associam (persuasivamente) a aquisição do produto (ou o uso do serviço) ao estado de satisfação ou felicidade, cuja expressão convencional é o sorriso (careta). Aliás, o hábito de não fazer essa careta o tempo todo (isto é, de não mostrar os dentes mal escovados para qualquer um) é denominado antipatia.
Há uma variedade enorme de fenômenos do cotidiano a evidenciar que as pessoas, nos melhores casos, apenas se suportam umas às outras.
"Somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição]
Quando, por exemplo, estão desacompanhadas e expostas a olhares de estranhos na rua, exibem um semblante de "mau-humor", de tensão ou de fastio (os dois primeiros denunciam o medo, o terceiro indica indiferença). Ninguém (exceto as crianças e os retardados) anda na rua exibindo um semblante de encanto, de fascínio pela sociedade. Pelo contrário, os adolescentes e adultos, na maioria das situações, mal conseguem disfarçar o desconforto.
No ônibus, cada pessoa que entra procura por assentos (que são duplos) que estejam completamente desocupados (isto é, com os dois lugares vagos). Pessoas que fazem isso não querem se sentar ao lado de um estranho: elas sentem medo e nojo. Quando, apesar dos esforços, não conseguem evitar dividir o assento com um estranho, elas raramente dirigem a palavra a este - na verdade, em tais circunstâncias, os dois indivíduos acomodados no mesmo assento, normalmente, mal se olham (a marca dessa recíproca indiferença entre os passageiros é o fone de ouvido). Não olhar insistentemente ou durante muito tempo para cara de estranhos é uma regra tácita de comportamento. Algumas pessoas realmente reagem assustadas a olhares lançados sobre elas de maneira súbita. Elas arregalam os olhos. Outros disfarçam fazendo cara de valente.
Outra coisa que convém registrar aqui é que as pessoas, em geral, vivem depreciando seus colegas quando estes estão ausentes. Falar mal dos outros é até mesmo uma maneira de "puxar assunto". Aliás, a maioria dos risos emanados de "rodinhas de amigos" são risos maldosos, cruéis, excitados por algum ataque (que normalmente é uma ridicularização ou uma ofensa) lançado contra um inimigo comum (o qual na maioria das vezes é apenas um inimigo em potencial, não um inimigo manifesto) ou contra qualquer outra entidade não integrada ao grupo ( tal entidade pode ser um homem qualquer que esteja passando por perto, uma classe social à qual os "amigos" não pertencem, uma ideologia, a sociedade, etc.). Toda "galera" é cruel e bestial (leia, visitante, algo sobre psicologia de grupo).
É-me realmente difícil conceber uma amizade cuja manutenção não dependa em grande parte dos ataques que os "amigos" lançam contra um inimigo comum. A harmonia dos risos provocados pelo êxito dos ataques fortalece a amizade, promete longa vida à união (e, como dizem, a união faz a força).
"Um grupo de pessoas a rir é uma paródia da humanidade." [Theodor Adorno - Dialética do Esclarecimento]
Theodor Adorno afirma no mesmo livro que "o riso é o sinal da violência, o prorrompimento de uma natureza cega e insensível". Hobbes não era muito simpático a gente risonha:
"O entusiasmo súbito é a paixão que provoca aqueles trejeitos a que se chama riso. Este é provocado ou por um ato repentino de nós mesmos que nos diverte, ou pela visão de alguma coisa deformada em outra pessoa, devido à comparação com a qual subitamente nos aplaudimos a nós mesmos. Isto acontece mais com aqueles que têm consciência de menor capacidade em si mesmos, e são obrigados a reparar nas imperfeições dos outros para poderem continuar sendo a favor de si próprios. Portanto um excesso de riso perante os defeitos dos outros é sinal de covardia e baixeza. Porque o que é próprio dos grandes espíritos é ajudar os outros a evitar o escárnio, e comparar-se apenas com os mais capazes." [Thomas Hobbes - Leviatã, Livro primeiro, capítulo 6]
Existem muitas teorias do riso. Ao meu ver, Bergson diz muitos absurdos sobre o assunto. Ele chega a associar riso com inteligência, com "inteligência pura", diz ele. Na verdade, um estudioso que inicia uma análise se valendo de expressões obscuras como "anestesia momentânea do coração" não me inspira grande respeito. E o que é isso, o coração? O que essa palavra designa quando não refere-se apenas ao órgão como tal? O referido autor, em seu livro intitulado O Riso, não se preocupa muito em escolher expressões livres de ambiguidade. Não são poucos os filósofos e sociólogos mais recentes que abusam dos subterfúgios semânticos. Muitos deles empregam frequentemente expressões obscuras, extravagantes, ou comunicam seus pensamentos de maneira confusa e demasiado subjetiva. Considere-re, por exemplo, a seguinte passagem da obra Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer.
"Em vez disso, faz deles o pressuposto formal de sua própria decisão racional, que se realizará sempre, por assim dizer, no interior do veredicto proto-histórico subjacente à situação
sacrificial."
O referido livro é, na minha opinião, muito bom e de conteúdo muito instrutivo, mas a exposição é horrorosa.
A interessante passagem seguinte é do referido livro de Bergson.
"O riso é, antes de tudo, um castigo. Feito para humilhar, deve causar à vítima dele uma impressão penosa. A sociedade vinga-se através do riso das liberdades que se tomaram com ela. Ele não atingiria o seu objetivo se carregasse a marca da solidariedade e da bondade. Dir-se-á que pelo menos a intenção pode ser boa, que quase sempre se castiga por amor, e que o riso, ao reprimir as manifestações exteriores de certos defeitos, nos convida assim, para o nosso bem maior, a corrigir esses defeitos e a nos aprimorar interiormente? Muito haveria a dizer sobre essa questão. Em geral e de modo tosco, o riso exerce sem dúvida uma função proveitosa. De resto, todas as nossas análises tendiam a mostrar isso. Mas não se conclui daí que o riso seja sempre justo, nem que se inspire numa ideia de benevolência ou mesmo de eqüidade. Para ser sempre justo seria necessário que proviesse de um ato de reflexão. Ora, o riso é simplesmente o efeito de um mecanismo montado em nós pela natureza, ou, o que vem a ser quase a mesma coisa, por um prolongado hábito da vida social. E ele parte sozinho, verdadeira resposta ao pé da letra. Ele não tem o lazer de olhar cada vez onde toca. O riso castiga certos defeitos quase como a doença castiga certos excessos, atingindo inocentes, poupando culpados, visando a um resultado geral e não podendo fazer a cada caso individual a honra de o examinar em separado. O mesmo acontece com tudo o que se faz por vias naturais em vez de se fazer por reflexão consciente. Uma justiça média poderá surgir no resultado de conjunto, mas não no pormenor dos casos particulares.. Nesse sentido, o riso não pode ser absolutamente justo. Reiteremos que também ele não pode ser bom. Ele tem por função intimidar humilhando. Não conseguiria isso se a natureza não houvesse deixado para esse efeito, nos melhores dentre os homens, um pequeno saldo de maldade, ou pelo menos de malícia. Talvez seja preferível não aprofundarmos em demasia essa questão. Nada encontraríamos de muito lisonjeiro para nós. Veríamos que o movimento de descontração ou de expansão não passa de prenúncio do riso, e que quem ri entra de pronto em si, afirma-se mais ou menos orgulhosamente a si mesmo, e tenderia a considerar a pessoa de outrem como um fantoche do qual segura os cordéis."
Imagine-se duas pessoas, A e B. Suponha-se que elas tenham intimidade uma com a outra, e considere-re uma pilhéria (proveniente de um programa de tv, por exemplo) comunicada a ambas, que tenha suscitado o riso de A e conservado B em serena seriedade. O que A sente, imediatamente após o ocorrido, quando olha para a cara séria de B? Sente vergonha, talvez até um desprezo por si própria, não é verdade? E por que isso acontece? É que a seriedade denuncia a presença da lucidez (refiro-me à seriedade da serenidade, da impassibilidade, não àquela máscara de "bravura"que toda gente usa quando quer intimidar seus semelhantes), e (ao meu ver) qualquer riso (ou pelo menos muitos deles) nasce de um delírio, de uma insuficiência da lucidez; pois é mais ou menos consensual que o homem vai se tornando mais sério à medida que ele vai acentuando a clareza da sua consciência, que vai ampliando seu horizonte e o alcance do seu juízo (e não é esse processo que percebemos em nós mesmos quando recordamos a doce ignorância da infância?). O conhecimento mata o riso, assim como mata o amor. Tudo murcha quando se devassa as configurações das coisas. Quanto mais alguém se volta para si mesmo, mais pobre lhe parece o mundo. A vida em comum só nos atrai na medida em que ainda não fomos desenganados (pelo que a condiciona). Não há entusiasmo que resista ao ataque de uma palavra suficientemente lúcida. Daí tanta gente temer a "negatividade", isto é, o desengano.
A sociedade só não desmorona porque as pessoas em geral permanecem num estado de profunda demência e ignorância. A vida do cidadão ordinário transcorre toda no entorpecimento. Se as pessoas parassem para pensar no que estão fazendo, não haveria mais ânimo para fazer coisa alguma. Nem conseguiriam levantar da cama de manhã cedo. Os teóricos sociais não são assim tão categóricos e resolutos nas suas análises porque não querem esgotar o assunto de suas especulações.
Mas olhe bem para o que te cerca, visitante, fale com as pessoas, analise-as; constate por si mesmo o que eu digo. Perceba a loucura embutida em boa parte das opiniões que elas emitem (mesmo sobre os assuntos mais triviais); perceba a fragilidade dos paradigmas, convicções e preconceitos consoante os quais elas tecem suas conclusões absurdas.
Sem dúvida, a única coisa que separa o homem clinicamente louco do cidadão considerado normal é que o primeiro só conta consigo mesmo para justificar sua loucura, e o segundo: com uma multidão de outros loucos.
"O conceito de saúde mental em nossa sociedade é definido na medida em que o comportamento do indivíduo se ajusta às necessidades do sistema e sem mostrar sinais de tensão." [T. Kaczynski - A Sociedade Industrial e o seu Futuro]
Note também, visitante, a demência do homem que atravessa uma tarde inteira de domingo sentado e hipnotizado diante de uma televisão (tal é você?). Em que mundo esse imbecil miserável acha que está?
"A indústria do entretenimento serve como importante ferramenta psicológica do sistema, inclusive quando distribui grande quantidade de sexo e violência. O entretenimento proporciona ao homem atual um meio de escape. Enquanto está absorvido pela televisão, videos, etc. pode esquecer a tensão, a ansiedade, a frustração, a insatisfação. Os povos antigos, quando não tinham nenhum trabalho a fazer, se contentavam em sentar-se durante horas sem fazer nada, porque estavam em paz consigo mesmos e com seu mundo. Atualmente, a maior parte das pessoas está constantemente ocupada ou entretida, de outro modo se aborreceria, isto é, estaria inquieta, incômoda, irritada." [T. Kaczynski - A Sociedade Industrial e o seu Futuro]
O homem das sociedades atuais, além de ser mentalmente dirigível e não ter a capacidade de discernir corretamente as condições do mundo em que vive, não é dono nem do seu destino, conforme nota muito bem Kaczynski (esse misantropo disfarçado de anarquista) na passagem seguinte.
"As nossas vidas dependem da manutenção dos padrões de segurança de uma central nuclear; de quanto pesticida chega à nossa alimentação ou quanta poluição ao ar que respiramos; ou da competência do nosso médico; se perdemos um emprego ou o conseguimos pode depender de decisões feitas por economistas a trabalharem para o governo ou por gestores de empresas; e por aí fora.. O homem primitivo, sob a ameaça de um animal feroz, ou da fome, pode lutar em sua própria defesa ou deslocar-se em busca de comida. Não tem a certeza de ter sucesso nestes esforços, mas em todo o caso não se considera indefeso contra as coisas que o ameaçam. Por seu lado, o homem moderno é ameaçado por muitas coisas em relação às quais está indefeso; acidentes nucleares, carcinógenos na comida, poluição ambiental, guerras, aumento dos impostos, violação da sua privacidade por parte de grandes organizações, fenômenos sociais ou sócio-econômicos à escala nacional que podem pôr em causa o seu modo de vida." [T. Kaczynski - A Sociedade Industrial e o seu Futuro]
No supracitado livro, Kaczynski cita Shannon:
"Visualizo um tempo em que nós seremos para os robôs o que os cães são para nós, e
eu apoio as máquinas." [Claude Shannon]
Há quem diga que as coisas acontecem apenas "se deus quiser". Estes certamente dormem muito bem.
Francamente, não há um só ser humano ao meu redor cuja companhia me proporcione a mais miserável satisfação. Viver num mundo tomado de criaturas como essas constitui o grande drama da minha vida. A aversão que eu sinto por essas entidades (yahus vestidos) só têm aumentado. Às vezes, sinto-me como se houvesse sido sequestrado por um bando de selvagens e estivesse agora sendo forçado a viver conforme os hábitos e crenças deles. Não bastasse isso, ainda sou importunado por alguns que alegam pertencer a uma raça idêntica à minha. O absurdo desta asserção é tão patente que eu acabo sempre achando desnecessário replicar.
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