SOBRE AS PESSOAS:
"Se não é dado às crianças tudo o que elas querem, elas serão impertinentes e chorarão, às vezes até golpeando seus pais, e farão tudo isto por natureza sendo contudo, livres de culpa. Não é correto que as consideremos más, pois, como estão desprovidas do uso da razão, não conhecem o dever. Porém, quando atingem a maturidade e adquirem força capaz de causar danos, é que verdadeiramente começam a ser más e são corretamente consideradas más. Um homem perverso é assim, quase a mesma coisa que uma criança que adquiriu força e tornou-se robusta, ou um homem de disposição infantil; e a malícia é a mesma coisa que a ausência de razão naquela idade onde deveria ser melhor governada pela boa educação e experiência. Assim, nós diremos que os homens são maus por natureza, a não ser que entendamos que eles apenas não recebem da natureza sua educação e o uso da razão." [Thomas Hobbes - Do Cidadão]
"Um animal, quaisquer sejam as circunstâncias às quais esteja submetido, permanece confinado a um pequeno círculo irrevogavelmente determinado pela natureza, de tal forma que, por exemplo, nossos esforços para agradar um animal de estimação devem sempre se manter dentro dessas fronteiras exatamente devido aos limites de sua verdadeira natureza, restritos ao que esse pode sentir. Acontece o mesmo com o homem; a medida de sua felicidade possível é determinada de antemão por sua individualidade. Particularmente, os limites de seus poderes mentais fixaram em definitivo sua capacidade para prazeres de natureza mais elevada. Se tais poderes forem pequenos, nenhum esforço exterior, nada que seus companheiros ou que seu destino fizer será suficiente para elevá-lo além do grau habitual de felicidade humana e prazer meio-animais. O que lhe resta são os prazeres dos sentidos, uma confortável e alegre vida familiar, má companhia e passatempos vulgares. Mesmo a educação, no todo, não pode oferecer muito, se é que oferece algo, para ampliar seu horizonte." [Schopenhauer - Aforismos
para a Sabedoria de Vida]
"É realmente notável testemunhar como dois homens, especialmente se forem moralmente e intelectualmente inferiores, se reconhecem à primeira vista, como anseiam profundamente unirem-se, com que amor e alegria se apressam em saudar um ao outro, como se fossem velhos amigos. Isso é tão surpreendente que nos sentimos tentados a admitir, segundo a doutrina budista da metempsicose, que já haviam sido amigos em uma vida anterior." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"O que faz os homens sociáveis é sua incapacidade de suportar a solidão e a sua própria companhia. Seu vazio interior, fadiga e tédio os conduzem a buscar a sociedade e a empreender viagens a países estrangeiros.. Necessitam constantemente da excitação exterior e mesmo da mais forte, i.e. produzida por seres de sua espécie, sem a qual seus espíritos cedem sob seu próprio peso e caem em uma dolorosa letargia. Pode-se dizer igualmente que cada qual deles não é mais que uma pequena fração da Idéia da humanidade, necessitando ser complementados com muitos outros para que, de algum modo, surja uma consciência humana inteira. Pelo contrário, aquele que é um homem completo, um homem par excellence, representa uma unidade inteira, não uma fração e, por conseguinte, se basta a si mesmo. Nesse sentido, pode-se comparar a sociedade vulgar a essas orquestras russas compostas exclusivamente de trombetas, nas quais o instrumento só tem uma nota, e a música é produzida quando todos soam ao mesmo tempo. Pois o temperamento e a mentalidade da maioria dos homens são tão monótonos como essas trombetas de apenas uma nota. Neles parece realmente não haver senão um único pensamento, sem espaço para qualquer outro. Isso explica, por sua vez, não apenas por que são tão entediados, mas também por que são tão sociáveis e preferem andar em bandos: the gregariousness of mankind [a gregariedade humana]. É a monotonia de seu próprio ser o insuportável a cada um deles: omnis stultitia laborat fastidio sui [a estupidez sofre com o cansaço de si mesma (Sêneca, Epistulae, 9.)]. Só juntos e unidos chegam a ser algo; como esses tocadores de trombetas." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Todos sabem que os males são aliviados quando os sofremos em comum. Os homens parecem considerar o tédio como um desses males e, por isso, se reúnem para se entediarem em conjunto. Assim como o amor à vida não é no fundo mais que o medo da morte, assim também o instinto social dos homens não é um sentimento direto. Logo, não se baseia no amor à sociedade, mas sim no medo da solidão, porque não é exatamente a agradável companhia dos demais aquilo que se busca, mas a fuga da aridez e desolação da solidão, assim como da monotonia das suas próprias consciências, que são desocupadas." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"A inveja dos homens demonstra como se sentem desgraçados. Sua constante atenção a tudo que os demais fazem ou deixam de fazer demonstra como são entediados." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se esta raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível — ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe.. Em todo o tempo, cada um precisa ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de lastro para se manter em equilíbrio e andar direito.. Os homens são como relógios a que se dá corda e trabalham sem saber por quê." [Schopenhauer]
"As palavras de Sêneca também são dignas de nota: argumenta morum ex minimis quoque licet capere [o homem demonstra seu caráter no modo como lida com banalidades (Epistulae, 52)]. Precisamente nas coisas pequenas, em que o homem baixa sua guarda, revela-se seu caráter; isso servirá como uma boa oportunidade para observarmos o egoísmo ilimitado da natureza humana e sua completa falta de consideração para com os demais; e se tais defeitos se revelam em coisas pequenas, ou simplesmente em seu comportamento geral, veremos que também acompanham seus atos em questões importantes, mesmo que se dissimule. Nunca devemos perder tais oportunidades. Quando, nos pequenos acontecimentos e circunstâncias da vida cotidiana, nas coisas às quais se aplica o de minimis lex non curat [a lei não cuida das coisas ínfimas], um homem se mostra inconsequente, buscando exclusivamente sua própria vantagem e conveniência em detrimento dos demais; quando se apropria daquilo que existe para servir a todos; podemos estar certos de que não há justiça em seu coração, e que seria um picareta mesmo em grande escala se suas mãos não estivessem atadas pela lei e pela autoridade." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
*Avançar o sinal vermelho, jogar lixo no chão, não efetuar a descarga após utilizar o vaso sanitário - manifestações do egoísmo ilimitado do ser humano.
"Ninguém pode ver acima de si mesmo; quero dizer com isso que todos vêem nos demais apenas aquilo que se é em si mesmo; porque cada qual não pode apreender e compreender o outro senão na medida de sua própria inteligência. Se essa é da espécie mais ínfima, nenhum dote intelectual, nem mesmo o mais elevado, lhe impressionará de modo algum; e não observará naquele que o possui nada além dos elementos mais vis em sua natureza individual, isto é, apenas suas fraquezas e todos os seus defeitos de temperamento e de caráter. E disso estará composto o grande homem aos olhos do homem vulgar; suas faculdades intelectuais mais eminentes não existem para o outro, como não existem as cores para o cego. Isso porque o maior talento é invisível para aquele que não possui nenhum... Se refletirmos sobre quão profundamente vulgares e inferiores, sobre quão completamente medíocres são as pessoas em sua maioria, veremos que é impossível falar com elas sem nos tornamos igualmente medíocres durante esse intervalo (por analogia com a transmissão da eletricidade). Se compreenderá então o significado próprio e a verdade desta expressão alemã: sich gemein machen [parear-se com o companheiro]; e de bom grado evitaremos a companhia daqueles com os quais não podemos nos comunicar exceto mediante a partie honteuse [a parte vergonhosa] de nossa natureza. Se compreenderá igualmente que, na presença de loucos e imbecis, não há mais que uma maneira de demonstrar inteligência: não lhes dirigir a palavra." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Toda satisfação e alegria intelectual consiste em encontrar pessoas que, ao serem comparadas a nós, nos proporcionam o sentimento de triunfo e motivos para nos gabarmos." [T. Hobbes - Do Cidadão]
"O homem comum não tem ciência nem arte." [Sigmund Freud - O mal-estar na civilização]
"A amplitude da visão intelectual de um homem normal de fato supera a do animal, mas não numa distância imensurável como normalmente se supõe. Isso é, de fato, evidenciado pelo modo como a maior parte dos homens conversa; vemos que seus pensamentos são podados, tornando impossível que desenvolvam a linha de seu discurso em qualquer sentido." [Schopenhauer - Do Pensar por Si]
"Não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? TODOS OS SERES SÃO DESGRAÇADOS; mas, quantos sabem disso?" [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, A Consciência da Infelicidade]
"A individualidade da maioria dos homens é tão miserável e tão insignificante que nada perde com a morte." [A. Schopenhauer]
"A tolerância que muitas vezes se nota e se louva nos grandes homens é sempre resultado do mais profundo desprezo pelo resto da humanidade: quando um grande espírito se compenetra deste desprezo, deixa de considerar os homens como seus semelhantes, e de exigir deles o que se exige dos semelhantes. Usa então para com eles a mesma tolerância que tem com os outros animais, aos quais não temos que censurar a sem-razão nem a bestialidade." [Schopenhauer]
"Mediocridade como máscara. — A mediocridade é a melhor máscara que o espírito superior pode usar, pois faz a grande maioria, ou seja, os medíocres, não pensar que há um mascaramento —: e, no entanto, ele a exibe justamente por causa deles — para não irritá-los, às vezes por compaixão e bondade." [F. Nietzsche - Humano, Demasiado Humano]
"A cortesia é verdadeiramente uma árdua tarefa, visto que nos força a demonstrar um grande respeito para todos, sendo que a maioria não merece nenhum." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito. Porque cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o mesmo valor que ele se atribui a si próprio e, na presença de todos os sinais de desprezo ou de subestimação, naturalmente se esforça (na medida em que a tal se atreva) por arrancar de seus contendores a atribuição de maior valor, causando-lhes dano, e dos outros também, através do exemplo." [Thomas Hobbes - Leviatã, Primeira Parte]
"O homem suporta o peso de seu próprio corpo sem senti-lo, porém sente aquele de todo corpo estranho que quiser mover. Do mesmo modo, só percebe os defeitos e os vícios dos demais, não os próprios. Em vez disso, cada qual possui no outro um espelho no qual pode ver com clareza seus próprios vícios, seus defeitos, seus modos grosseiros e repugnantes de toda espécie. Porém, normalmente, é como o cão que late para sua própria imagem porque não sabe que está vendo a si próprio, mas imagina ver outro cão." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Quer-se saber o que valem os homens do ponto de vista moral, individualmente e em geral? - Nada se tem a fazer a não ser considerar-lhes o destino individualmente e em geral: penúria, miséria, calamidade, sofrimento e morte. Reina sobre o mundo uma justiça eterna; e, se tomados em massa os mortais não fossem tão abjetos, a sorte em geral não lhes seria tão triste" [Schopenhauer - O Mundo como Vontade e Representação, livro 4]
"É manifesto que as ações humanas originam-se de sua vontade, e tal vontade tem origem na esperança e no medo, de tal maneira que ao perceberem que da violação das leis provavelmente lhes ocorrerá um bem maior, ou um mal menor, do que se fossem observadas, facilmente eles a transgridem. A esperança que cada homem nutre sobre sua segurança e auto-conservação, consiste em lograr o próximo através da força ou da habilidade, seja de maneira aberta, seja por alguma estratégia específica." [T. Hobbes - Do Cidadão, Parte 1, Capítulo 5]
"A maior parte dos homens que escreveram algo sobre o propósito das repúblicas, ou supõe, ou nos requer e implora acreditar que o homem é uma criatura que já nasce ajustado para a sociedade. Os gregos denominaram-no animais políticos; e nesta fundação eles constroem a doutrina da sociedade civil, como se para a preservação da paz e o governo dos homens, não houvesse necessidade além de que os homem deveriam estabelecer e concordar em firmar algumas condições e convenções comuns, que eles próprios denominariam leis. Tal axioma, embora aceito pela maioria, é certamente falso. Aqueles que observarem de maneira mais estreita as causas através das quais os homens vivem conjuntamente, deleitando na companhia uns dos outros, notará facilmente que isto acontece por acidente. Pois se um homem deve amar outro por natureza (isto é, como homem), não encontraríamos qualquer razão para que todo homem não ame da mesma maneira outro homem, por ser igualmente homem, ou para se aproximar mais daqueles cuja companhia lhes confira maior honra ou lucro. Assim, não buscamos a sociedade naturalmente e por si própria, mas sim para que possamos dela receber alguma honra ou lucro. Desejamos estes em primeiro lugar, aquela secundariamente. Como e com que intenção os homens se agrupam, saberemos melhor se observarmos as coisas que fazem quando se reúnem. Se eles se encontram para o comércio, é claro que cada um não o faz considerando o outro, mas apenas seu negócio; se o motivo é o desempenho de algum ofício constitui-se uma certa amizade comercial, que em si inspira mais cuidados do que verdadeiramente amor, e por isso às vezes dela surgem facções, mas nunca boa vontade; se for por prazer e descontração da mente, todo homem tende mais a se divertir com aquilo que incita o riso, de onde ele pode elevar ainda mais sua opinião, comparando os defeitos e fraquezas de outro; e apesar disto se fazer às vezes de modo inocente e sem ofensas, é ainda manifesto que estes homens não se encantam com a sociedade, mas sim com a sua própria vanglória. Constatamos que na maioria das vezes, o ausente é ferido nesse tipo de reunião; toda a sua vida, seus ditos e ações são examinados, julgados, condenados; é muito raro que algum presente não receba uma seta antes de partir, de modo que a razão daquele que busca ser sempre o último a sair não é má. Estas são as verdadeiras delícias da sociedade, para as quais nossa natureza nos conduz.." [Thomas Hobbes - Do Cidadão, Parte 1, Capítulo 1]
"Na escala das criaturas só o homem pode inspirar um nojo constante. A repugnância que provoca um animal é passageira; não amadurece no pensamento, enquanto que nossos semelhantes inquietam nossas reflexões, infiltram-se no mecanismo de nosso desapego do mundo para nos confirmar em nosso sistema de recusa e não adesão. Depois de cada conversa, cujo refinamento indica por si só o nível de uma civilização, por que é impossível não sentir saudades do Saara e não invejar as plantas e os monólogos infinitos da zoologia?" [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Exegese da Decadência]
"Devo confessá-lo sinceramente: a vista de qualquer animal regozija-me e satisfaz-me o coração; principalmente os cães, e todos os animais em liberdade, pássaros, insetos, etc. Pelo contrário, a presença dos homens excita quase sempre em mim uma pronunciada aversão; porque, com poucas exceções, oferecem-me o espetáculo das deformidades mais horríveis e variadas: fealdade física, expressão moral de paixões baixas e ambições desprezíveis, sintomas de loucura e de perversidades de todas as espécies e grandezas; enfim uma corrupção sórdida, fruto e resultado de costumes degradantes; desvio-me, portanto, deles e busco abrigo na natureza.." [A. Schopenhauer]
Cioran num documentário (que pode ser encontrado no youtube):
"Ver as coisas tal como são torna a vida quase intolerável. Porque eu creio haver visto, em parte, as coisas tal como são. Não posso agir. Sempre permaneci à margem dos atos. Agora, é desejável que os homens vejam as coisas tal como são? Não sei. Penso que em geral as pessoas são incapazes." [Emil Cioran]
SOBRE RELIGIÕES, IGNORÂNCIA E CREDULIDADE:
"Aqueles homens que pouca ou nenhuma investigação fazem das causas naturais das coisas, todavia, devido ao medo que deriva da própria ignorância, daquilo que tem o poder de lhes ocasionar grande bem ou mal, tendem a supor, e a imaginar por si mesmos, várias espécies de poderes invisíveis, e a se encherem de admiração e respeito por suas próprias fantasias. Em épocas de desgraça tendem a invocá-las, e quando esperam um bom sucesso tendem a agradecer-lhes, transformando em seus deuses as criaturas de sua própria fantasia. E foi dessa maneira que aconteceu, devido à infinita variedade da fantasia, terem os homens criado no mundo inúmeras espécies de deuses. Este medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que cada um em si mesmo chama religião, e naqueles que veneram e temem esse poder de maneira diferente da sua, superstição. E tendo esta semente da religião sido observada por muitos, alguns dos que a observaram tenderam a alimentá-la, revesti-la e conformá-la às leis, e a acrescentar-lhe, de sua própria invenção, qualquer opinião sobre as causas dos eventos futuros que melhor parecesse capaz de lhes permitir governar os outros, fazendo o máximo uso possível de seus poderes." [Thomas Hobbes - Leviatã, Primeira Parte, capítulo 11]
"E é nestas quatro coisas, a crença nos fantasmas, a ignorância das causas segundas, a devoção pelo que se teme e a aceitação de coisas acidentais como prognósticos, que consiste a semente natural da religião. A qual, devido às diferenças da imaginação, julgamento e paixões dos diversos homens, se desenvolveu em cerimônias tão diferentes que as que são praticadas por um homem são em sua maior parte consideradas ridículas por outro.. Quanto àquela parte da religião que consiste nas opiniões relativas à natureza dos poderes invisíveis, quase nada há com um nome que não tenha sido considerado entre os gentios, em um ou outro lugar, como um deus ou um demônio, ou imaginado pelos poetas como animado, habitado ou possuído por um ou outro espírito. A matéria informe do mundo era um deus com o nome de Caos. O céu, o oceano, os planetas, o fogo, a terra, os ventos, eram outros tantos deuses. Os homens, as mulheres, um pássaro, um crocodilo, uma vaca, um cão, uma cobra, uma cebola, um alho-porro foram divinizados. Além disso, encheram quase todos os lugares com espíritos chamados daemons; as planícies, com Pan, e panises, ou sátiros; os bosques, com faunos e ninfas; o mar, com tritões, e outras ninfas; cada rio e cada fonte, com um fantasma do mesmo nome, e com ninfas; cada casa com seus lares ou familiares; cada homem com seu gênio; o inferno, com fantasmas e acólitos espirituais como Caronte, Cérbero e as Fúrias; e de noite todos os lugares com larvas, lêmures, fantasmas de homens falecidos, e todo um reino de fadas e duendes. Também atribuíram divindade e dedicaram templos a meros acidentes e qualidades, como o tempo, a noite, o dia, a paz, a concórdia, o amor, o ódio, a virtude, a honra, a saúde, a corrupção, a febre, e outros semelhantes. E em suas preces, a favor ou contra, a eles oravam, como se houvesse fantasmas com esses nomes pairando sobre suas cabeças, os quais deixariam cair, ou impediriam de cair, aquele bem ou mal a favor do qual, ou contra o qual oravam. Invocavam também seu próprio engenho, sob o nome de Musas; sua própria ignorância, sob o nome de Fortuna; seu próprio desejo sob o nome de Cupido; sua própria raiva sob o nome de Fúrias; seu próprio membro viril sob o nome de Príapo; atribuíam suas propulsões a Íncubos e Súcubos; de modo tal que nada que um poeta pudesse introduzir como pessoa em seu poema deixavam de fazer um deus, ou um demônio. Os mesmos autores da religião dos gentios, observando o segundo fundamento da religião, que é a ignorância que os homens têm das causas, e consequentemente sua tendência para atribuir sua sorte a causas das quais ela em nada aparenta depender, aproveitaram para impor à sua ignorância, em vez das causas secundárias, uma espécie de deuses secundários e ministeriais, atribuindo a causa da fecundidade a Vênus, a causa das artes a Apolo, a da sutileza e sagacidade a Mercúrio, a das tormentas e tempestades a Éolo, e as de outros efeitos a outros deuses. De modo tal que havia entre os pagãos quase tão grande variedade de deuses como de atividades." [Thomas Hobbes - Leviatã, Primeira Parte, capítulo 12]
"Templos e igrejas, pagodes e mesquitas, em todos os tempos, pela sua magnificência e grandeza testemunham a necessidade metafísica do homem, que forte e indestrutível, segue passo a passo a necessidade física. Poder-se-ia, é certo, querendo empregar o tom satírico, acrescentar que a primeira necessidade é modesta e contenta-se com pouco. Fábulas grosseiras, contos para dormir em pé, é quanto lhe basta muitas vezes: se as imprimirem bastante cedo no espírito do homem, essas fábulas e essas lendas tornam-se as explicações suficientes da sua existência e os sustentáculos da sua moralidade. Considere-se por exemplo o Alcorão: esse livro medíocre bastou para fundar uma religião que, espalhada pelo mundo, satisfaz a necessidade metafísica de milhões de homens há mil e duzentos anos, serve-lhes de fundamento à moral, inspira-lhes grande desprezo pela morte e entusiasmo pelas guerras sangrentas e pelas vastas conquistas. Encontramos nesse livro a figura mais triste e miserável do teísmo. Talvez tenha perdido muito com as traduções; mas não me foi possível descobrir aí um único pensamento de algum valor." [Schopenhauer]
"Não contente com os cuidados, as aflições e os embaraços que o mundo real lhe impõe, o espírito humano crê ainda um mundo imaginário sob a forma de mil superstições diversas. Estas ocupam-no de todas as maneiras; consagra-lhes o melhor do seu tempo e das suas forças, logo que o mundo real lhe conceda um repouso que não é capaz de gozar. Pode verificar-se esse fato na sua origem, entre os povos que, colocados sob um céu puro e num solo clemente, têm uma existência fácil, tais como os hindus, depois os gregos, os romanos, mais tarde os italianos, os espanhóis, etc. — O homem representa-se demônios, deuses e santos à sua imagem; exigem a todo o momento sacrifícios, orações, ornamentos, promessas feitas e realizadas, peregrinações, prosternações, quadros, adornos, etc. Ficção e realidade entremeiam-se ao seu serviço, e a ficção obscurece a realidade; qualquer acontecimento da vida é aceito como uma manifestação do seu poder. Os colóquios místicos com essas divindades preenchem metade dos dias, sustentam incessantemente a esperança; o encanto da ilusão torna-os muitas vezes mais interessantes que a convivência dos seres reais. Que expressão e que sintonia da miséria inata do homem, da urgente necessidade que ele tem de socorro e de assistência, de ocupação e de passatempo! E, embora perca forças úteis e instantes preciosos em súplicas e sacrifícios inúteis em vez de se proteger a si mesmo, quando surgem perigos imprevistos, não cessa contudo de se ocupar e distrair nesse exercício fantástico com um mundo de espíritos com que sonha." [Schopenhauer]
"A religião católica é uma instrução para mendigar o céu, que seria muito incômodo merecer. Os padres são intermediários dessa mendicidade." [Schopenhauer]
"Quando se chega ao limite do monólogo, às fronteiras da solidão, inventa-se — na falta de outro interlocutor — Deus, pretexto supremo de diálogo. Enquanto o nomeias, tua demência está bem disfarçada e.. tudo te é permitido. O verdadeiro crente mal se distingue do louco; mas sua loucura é legal, admitida; acabaria em um asilo se suas aberrações estivessem livres de toda fé. Mas Deus as cobre, as torna legítimas." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, A Arrogância da Oração]
"Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado aspecto, como um paranóico, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade. Concede-se especial importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo." [Sigmund Freud - O Mal-Estar na Civilização]
"Qualquer indivíduo que seriamente pense que seres supra-humanos concederam à nossa raça informações quanto aos objetivos de sua existência e do mundo ainda está na sua infância." [A. Schopenhauer - O Sistema Cristão]
SOBRE A VIDA:
"Pode considerar-se a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada." [A. Schopenhauer]
"Considerando a vida sob a relação física, é evidente que, assim como o caminhar é apenas uma sucessão de quedas evitadas, também nossa vida corpórea é uma morte incessantemente impedida, uma destruição do nosso corpo sempre retardada; e a atividade do nosso espírito não é mais que um esforço constante para espantar o tédio. Cada sopro de nossa respiração afasta a morte que nos assalta; lutamos contra a morte a cada segundo, e lutamos ainda com largos intervalos toda vez que nos alimentamos, que dormimos, que nos aquecemos, etc. Mas a morte é destinada, enfim, a vencer: pois nos tornamos sua herança desde que nascemos e ela não faz mais que brincar com a presa antes de devorá-la. Até lá mantemos nossa vida com todo o cuidado a fim de fazê-la durar o mais longamente possível, assim como se infla uma bolha de sabão o mais grandemente e longamente que se possa, sabendo que ela em breve irá estourar." [Arthur Schopenhauer - O Mundo como Vontade e Representação, livro 4]
"Considerando a vida sob o aspecto do seu valor objetivo, é pelo menos duvidoso que ela seja preferível ao nada; e eu diria até que se a experiência e a reflexão se pudessem fazer ouvir, elevariam a voz em favor do nada. Se batêssemos nas pedras dos túmulos para perguntar aos mortos se querem ressuscitar, eles abanariam a cabeça. É também esta a opinião de Sócrates na apologia de Platão, e até o amável e alegre Voltaire não pôde deixar de dizer: ''Aprecia-se a vida; mas o nada também tem o seu lado bom''; e ainda: ''Não sei o que é a vida eterna, esta, porém, é uma brincadeira sem graça.'' [Schopenhauer]
"Os esforços sem tréguas para banir o sofrimento da vida conseguem no máximo fazê-lo mudar de figura. Na origem ele aparece sob a forma da necessidade, do cuidado pelas coisas materiais da vida. Conseguindo-se, à custa de penas, expulsar a dor sob esse aspecto, logo se transforma e toma mil formas diferentes, conforme as idades e as circunstâncias; é o instinto sexual, o amor apaixonado, o ciúme, a inveja, o ódio, a ambição, o medo, a avareza, a doença, etc., etc. Se não encontra outro acesso livre, toma o manto triste e pardo do tédio e da sociedade, e então, para a combater, é preciso forjar armas. Conseguindo-se expulsá-la, não sem combate, volta às suas antigas metamorfoses, e a dança recomeça." [Schopenhauer]
"Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a História só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos períodos. E da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o tédio, mas também contra os outros homens. Em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.. Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que nos não deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia dos forçados de chicote em punho. — Poupa apenas aqueles que entregou ao tédio." [Schopenhauer]
"A vida se apresenta principalmente como uma tarefa, isto é, de subsistir de gagner sa vie [para ganhar a vida]. Se for cumprida, a vida torna-se um fardo, e então vem a segunda tarefa de fazer algo com o que foi conquistado - a fim de espantar o tédio, que, como uma ave de rapina, paira sobre nós, pronto para atacar sempre que vê a vida livre da miséria. A primeira tarefa é conquistar algo; a segunda é banir o sentimento de que algo foi conquistado, do contrário torna-se um fardo. Está suficientemente claro que a vida humana é algum tipo de erro, com base no fato de que o homem é uma combinação de necessidades difíceis de satisfazer; além disso, se for satisfeito, tudo o que obtém é um estado de ausência de dor, no qual resta apenas seu abandono ao tédio. Essa é uma prova precisa de que a existência em si mesma não tem valor, visto que o tédio é meramente o sentimento do vazio da existência. Se, por exemplo, a vida - o desejo pelo qual se constitui nosso ser - possuísse qualquer valor real e positivo, o tédio não existiria: a própria existência em si nos satisfaria, e não desejaríamos nada. Mas nossa existência não é algo agradável a não ser que estejamos perseguindo algo; então a distância e os obstáculos a serem superados representam nossa meta como algo que nos satisfará - uma ilusão que se desmancha assim que o objetivo é atingido; ou quando estamos engajados em algo que é de natureza puramente intelectual - quando nos distanciamos do mundo a fim de podermos observá-lo pelo lado de fora. Mesmo o prazer sensual em si não significa nada além de um esforço contínuo, que cessa assim que seu objetivo é alcançado. Sempre que não estivermos ocupados em algum desses modos, mas jogados na existência em si, nos confrontamos com seu vazio e futilidade; e é isso o que denominamos tédio." [A. Schopenhauer - O Vazio da Existência]
"Com respeito a cada homem em particular, a história de uma existência é sempre a história de um sofrimento, porque toda a biografia percorrida é uma série ininterrupta de reveses e de desgraças, que cada um procura ocultar porque sabe que longe de inspirar aos outros simpatia ou piedade, dá-lhes enorme satisfação, de tal modo se alegram em pensar nos desgostos alheios a que escapam naquele momento; — é raro que um homem no fim da vida, sendo ao mesmo tempo sincero e ponderado, deseje recomeçar o caminho, e não prefira infinitamente o nada absoluto." [Schopenhauer]
"Em geral, o homem que permanece calmo e sereno ante as adversidades demonstra o conhecimento de quão imensos e múltiplos são os males possíveis na vida; e que não considera a desgraça que sobrevém em certo momento senão como uma pequena parcela do que poderia suceder. Esse é o sentimento do estóico, segundo o qual nunca devemos ser conditionis humanae oblitus [esquecidiços da condição humana], senão sempre ter em mente o triste e deplorável destino geral da existência humana, assim como os inumeráveis males aos quais está exposta. Para avivar esse sentimento, não precisamos mais que voltar o olhar ao nosso redor; onde quer que estejamos, veremos a humanidade lutando e chafurdando em tormentas por uma miserável e insignificante existência." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"A VIDA NÃO TEM VALOR verdadeiro e genuíno em si mesma. Ela é mantida em movimento por meio de meras necessidades e ilusões. Assim que não houver necessidades e ilusões tornamo-nos conscientes da absoluta futilidade e vacuidade da existência." [A. Schopenhauer - O Vazio da Existência]
"As cenas de nossa vida são como imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem efeitos - devem ser vistas à distância para ser possível discernir sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e fútil isto é; estamos sempre na expectativa de melhorias, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo pertencente ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte dos homens perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresos ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida - isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então pode dizer-se que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!" [Schopenhauer - O Vazio da Existência]
"Quanto mais se avança em idade, mais insignificantes nos parecem as coisas humanas, por maiores que sejam; a vida que, durante a juventude, estava ali ante nós, firme e imóvel, nos parece agora uma sucessão rápida de fenômenos efêmeros; e se compreende o vazio e o nada das coisas deste mundo." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Aquele que, imbuído dos ensinamentos da minha filosofia, sabe que toda nossa existência é uma coisa que melhor fora que não existisse e que a suprema sabedoria consiste em negá-la e em rejeitá-la, não nutrirá grandes expectativas em relação a coisa alguma; não perseguirá com paixão nada no mundo, e tampouco levantará grandes queixas quando falhar em qualquer empreendimento. Pelo contrário, reconhecerá a profunda veracidade das palavras de Platão: Nenhuma das coisas humanas é digna de tanta urgência (República, X. 604)." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Nenhuma das coisas humanas é digna de tanta urgência." [Platão]
"Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a inquietação, mas não a ausência da inquietação; o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo, como sentimos a fome e a sede; mas apenas satisfeitos, tudo acaba, assim como o bocado que, uma vez engolido, deixa de existir para a nossa sensação. Enquanto possuímos os três maiores bens da vida, saúde, mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de os havermos perdido, porque esses também são bens negativos. Só notamos os dias felizes da nossa vida passada depois de darem lugar aos dias de tristeza... — À medida que os nossos prazeres aumentam, tornam-nos cada vez mais insensíveis; o hábito não é já um prazer. Por isso mesmo a nossa faculdade de sofrer é mais viva; todo o hábito suprimido causa um sentimento doloroso. As horas correm tanto mais rápidas quanto mais agradáveis são, tanto mais demoradas quanto mais tristes, porque o gozo não é positivo, mas sim a dor, cuja presença se faz sentir. O tédio dá-nos a noção do tempo, a distração tira-a. O que prova que a nossa existência é tanto mais feliz quanto menos a sentimos: de onde se segue que mais vale ver-nos livres dela. Não se poderia absolutamente imaginar uma grande e viva alegria, se esta não sucedesse a uma grande miséria porque nada há que possa atingir um estado de alegria serena e durável; o mais que se consegue é distrair, satisfazer a vaidade.. Voltaire, o feliz Voltaire, que tão favorecido foi pela natureza, pensa como eu, quando diz: ''A felicidade não passa de um sonho, só a dor é real''; e acrescenta: ''Há oitenta anos que o experimento. Não sei fazer outra coisa senão resignar-me, e dizer a mim mesmo que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas, e os homens para serem devorados pelos pesares.'' " [Schopenhauer]
"As moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas, e os homens para serem devorados pelos pesares." [Voltaire]
"Criador de valores, o homem é o ser delirante por excelência, vítima da crença de que algo existe, enquanto que lhe basta reter sua respiração: tudo se detém; suspender suas emoções: nada vibra mais; suspender seus caprichos: tudo se torna opaco. A realidade é uma criação de nossos excessos, de nossos exageros e de nossos desregramentos. Um freio em nossas palpitações: o curso do mundo se torna mais lento; sem nossos ardores, o espaço é de gelo. O próprio tempo só transcorre porque nossos desejos engendram este universo decorativo que uma gota de lucidez desnudaria. Um grão de clarividência nos reduz à nossa condição primordial: a nudez; uma ponte de ironia nos despe desse disfarce de esperanças que permite que nos enganemos e imaginemos a ilusão: todo caminho contrário leva para fora da vida. O tédio é apenas o começo desse itinerário. . . Ele nos faz sentir o tempo demasiado longo - inapto para revelar-nos um fim. Separados de todo objeto, não tendo nada que assimilar do exterior, nos destruímos em câmera lenta, já que o futuro deixou de oferecer uma razão de ser. O tédio nos revela uma eternidade que não é a superação do tempo, mas sua ruína; é o infinito das almas corrompidas por falta de superstições: um absoluto insosso onde nada impede mais as coisas de girar em busca de sua própria queda. A vida se cria no delírio e se desfaz no tédio." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Desarticulação do Tempo]
"Como é difícil aprovar as razões que invocam as pessoas, cada vez que nos afastamos de qualquer uma delas a pergunta que vem ao espírito é invariavelmente a mesma: como é que não se mata? Pois nada é mais natural do que imaginar o suicídio dos outros. Quando se entreviu, por uma intuição devastadora e facilmente renovável, sua própria inutilidade, é incompreensível que qualquer outro não faça o mesmo. Suprimir-se parece um ato tão claro e tão simples! Por que é tão raro, por que todo mundo o elude? É que, se a razão desaprova o apetite de viver, o nada que faz prolongar os atos é entretanto uma força superior a todos os absolutos; ele explica a coalizão tácita dos mortais contra a morte; não só é o símbolo da existência, mas a existência mesma; é o todo. E esse nada, esse tudo não pode dar um sentido à vida, mas ao menos a faz perseverar no que ela é: UM ESTADO DE NÃO-SUICÍDIO." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Coalizão contra a Morte]
"Quem jamais concebeu sua própria anulação, quem não pressentiu o recurso à corda, à bala, ao veneno ou ao mar, é um condenado abjeto ou um verme rastejante sobre a carcaça cósmica. Este mundo pode nos tirar tudo, pode proibir-nos tudo, mas não está em poder de ninguém impedir nossa auto-abolição. Todos os utensílios nos ajudam, todos os nossos abismos nos convidam; mas todos os nossos instintos se opõem. Esta contradição desenvolve no espírito um conflito sem saída. Quando começamos a refletir sobre a vida, a descobrir nela um infinito de vacuidade, nossos instintos já se erigiram em guias e mandatários de nossos atos; refreiam o vôo de nossa inspiração e a destreza de nosso desprendimento. Se, no momento de nosso nascimento, fôssemos tão conscientes como o somos ao sair da adolescência, é mais do que provável que aos cinco anos o suicídio fosse um fenômeno habitual ou mesmo uma questão de honorabilidade.. Nenhuma igreja, nenhuma instituição inventou até o presente um só argumento válido contra o suicídio. A quem não pode mais suportar a vida, o que responder? Ninguém está à altura de tomar sobre si os fardos de outro. E que força dispõe a dialética contra os assaltos dos desgostos irrefutáveis e de mil evidências inconsoladas? O suicídio é um dos sinais distintivos do homem, uma de suas descobertas." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Recursos da Autodestruição]
"O que poderia ser mais lógico do que o suicídio? O que poderia ser mais despropositado do que continuar vivo? No entanto, todos nos agarramos à vida com desesperada devoção, mesmo quando o que resta dela é palpavelmente frágil e cheio de agonia. Metade do tempo dos médicos é desperdiçado bombeando vida em cacos humanos, que não têm nenhuma razão inteligível para continuar vivendo, assim como uma vaca tem para continuar dando leite." [H. L. Mencken - O Livro dos Insultos]
"Desde o começo, o cristianismo pintou a vida na terra como algo tão triste e vazio que seu valor tornou-se indistinguível do de uma merdinha. Então, para que aferrar-se a ela? Simplesmente porque sua inutilidade e dissabores são partes da vontade do Criador, cujo amor por Suas criaturas consiste curiosamente em torturá-las. Se elas se revoltam neste mundo, serão torturadas um milhão de vezes mais no próximo.. É difícil, se não for impossível, descobrir qualquer razão lógica ou probatória, que não se desmascare instantaneamente como cheia de falácias, para se continuar vivo. A sabedoria universal do mundo já concluiu há muito tempo que a vida é uma maldição. Consulte um filósofo proverbial de qualquer raça e você o verá falando da futilidade da batalha mundana. A antecipação é melhor do que a realização. O desapontamento é o quinhão da humanidade. Nascemos na dor e morremos no sofrimento. O homem feliz morreu quarta-feira. Fulano finalmente descansou. Etc., etc. Eu poderia estender esta lista por páginas e páginas. Se você despreza a sabedoria popular, dê uma espiada no seu Shakespeare: suas peças escorrem um pessimismo de ponta a ponta. Se há uma ideia geral nelas, é a de que a existência humana é uma penosa futilidade, apagável como uma vela." [H. L. Mencken - O Livro dos Insultos]
Macbeth (personagem fictícia): "Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa mórbida passada do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa." [W. Shakespeare - Macbeth, ato 5, cena 5]
"Houve tempo em que imaginei que os homens trabalhavam em resposta a uma vaga necessidade interior de se exprimir. Mas aquela era provavelmente uma teoria capenga, porque muitos dos homens que mais trabalhavam não têm nada a dizer. Uma hipótese mais plausível começa a brotar agora: os homens trabalham apenas para escapar à deprimente agonia de contemplar a vida — e seu trabalho, assim como o seu ócio, é uma comédia-pastelão, que só lhes serve para que eles escapem da realidade. Tanto o trabalho como o ócio, normalmente, são ilusões. Nenhum deles serve a qualquer propósito sólido e permanente. Mas a vida, despida dessas ilusões, torna-se logo insuportável. O homem não consegue ficar de mãos abanando, contemplando o seu destino neste mundo, sem ficar doido. Por isto inventa formas de tirar sua mente deste horror. Trabalha, diverte-se. Acumula aquele grotesco nada, chamado propriedade. Persegue aquela piscadela esquiva da fama. Constitui uma família e dissemina a sua maldição sobre ela. E, todo o tempo, a coisa que o move é o desejo de se perder de si mesmo, de se esquecer de si mesmo e de escapar à tragicomédia que é ele próprio. Fundamentalmente, A VIDA NÃO VALE A PENA SER VIVIDA. Assim, ele cria artificialidades para fazê-la parecer que vale. E também por isto erige uma espalhafatosa estrutura para esconder o fato de que ela não vale." [H. L. Mencken - O Livro dos Insultos]
"Na escala do tempo da história da Terra a vida de um ser humano é um mero piscar de olhos. Nascemos, vivemos e morremos — e então não mais somos “lembrados”. A morte é como um sono sem sonhos do qual nunca acordamos, nossa consciência suprimida para sempre. Se esta vida é tudo o que se apresenta, qual é o seu sentido? Se estamos todos fadados a morrer de qualquer forma, que diferença faz o que fazemos nossas vidas? Podemos influenciar as vidas de outras pessoas, mas elas também estão condenadas à morte. Em algumas poucas gerações a maioria de nossas realizações será totalmente esquecida, a memória de nossas vidas reduzidas a um mero nome entalhado numa lápide ou escrito numa árvore genealógica. Em alguns séculos até nossas tumbas se tornarão ilegíveis pela ação do tempo, restos de ossos serão tudo o que restará de nós. Exceto pela fossilização, até estes ossos serão desintegrados e nada de nós restará. Tudo de que fomos feitos será absorvido por outros organismos — plantas, animais, e até outros seres humanos. Novas espécies aparecerão, florescerão e desaparecerão, rapidamente substituídas por outras que preencherão o nicho deixado pela sua extinção. A humanidade também sucumbirá à extinção. Toda a vida na terra será varrida quando nosso sol moribundo tornar-se uma gigante vermelha, engolindo então a Terra. Finalmente, o universo tornar-se-á incapaz de permitir a existência de qualquer tipo de vida devido à sua eterna expansão, deixando apenas calor residual e buracos negros, ou senão se contrairá novamente unindo toda a matéria e energia num único Grande Buraco Negro. De qualquer forma, toda a vida no universo desaparecerá para sempre." [Keith Augustine]
"O maior crime do homem é ele ter nascido." [Caldeiron de La Barca - A Vida é um Sonho]
SOBRE A HUMANIDADE E O MUNDO:
"Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de a encarar incessantemente sob o seu verdadeiro prisma, habituai-vos a considerar este mundo como um lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos (Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399) e alguns padres da Igreja. (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23.)" [Schopenhauer]
"Todo o homem que despertou dos primeiros sonhos da juventude, que tem em consideração a sua própria experiência e a dos outros, que estudou a história do passado e a da sua época, se quaisquer preconceitos muito arraigados não lhe perturbam o espírito, acabará por chegar à conclusão de que este mundo dos homens é o reino do acaso e do erro, que o dominam e o governam a seu modo sem piedade alguma, auxiliados pela loucura e pela maldade, que não cessam de brandir o chicote." [Schopenhauer]
"Se quisermos alcançar uma compreensão nítida e profunda – e isso é muito necessário – da verdadeira e triste condição dos homens, será muito instrutivo encarar o modo como agem na literatura como um comentário sobre sua conduta na vida prática, e vice versa. Isso é muito útil para evitarmos idéias errôneas sobre nós próprios ou sobre os demais. Porém nenhum traço de vileza ou estupidez que encontremos, seja na vida ou na literatura, deve ser matéria para nos irritar ou incomodar, mas unicamente para instruir-nos na medida em que nos apresente um complemento do caráter da espécie humana, que será bom não esquecermos. Dessa maneira, examinaremos o assunto como o mineralogista considera um exemplar bem característico de um mineral que lhe chega às mãos. Há exceções, naturalmente, e é difícil compreender como essas surgem e como se manifestam as imensas diferenças entre os indivíduos; porém, em vista do todo, como há muito tempo já se disse, o mundo é mau. Os selvagens devoram uns aos outros e os civilizados se enganam mutuamente; e isso é o que se denomina a marcha do mundo." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Há alguma sabedoria naquele que, com um olhar sombrio, considera este mundo como uma espécie de inferno, e se ocupa apenas de proporcionar-se um abrigo onde esteja a salvo das chamas." [A. Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e diabos atormentadores... O inferno do nosso mundo excede o inferno de Dante no ponto em que cada um de nós é o diabo de seu vizinho; há também um arque-diabo superior a todos os outros, é o conquistador que dispõe milhares de homens em frente uns dos outros e lhes ordena: ''Sofrer, morrer, é o vosso destino; portanto fuzilem-se, canhoneiem-se mutuamente!'' e eles assim procedem ...Não há muito a se ganhar com o mundo; a miséria e a dor preenchem-no; se um homem escapar-lhes, o tédio estará à espreita em cada canto. Além disso, são a baixeza e a perversidade que governam o mundo, e a tolice predomina. O destino é cruel e a humanidade é desprezível." [A. Schopenhauer]
"A capacidade de destruição do homem ameaça tornar-se tão grande que, quando vier a se esgotar, esta espécie terá feito tabula rasa da natureza. Ou bem há de se dilacerar a si mesma, ou bem arrastará consigo para a destruição a fauna e a flora inteiras da terra." [Theodor W. Adorno / Max Horkheimer - Dialética do Esclarecimento]
SOBRE A SOLIDÃO:
"Os homens inteligentes e sábios buscarão, primeiramente, se libertar do sofrimento e das moléstias, e encontrar quietude e repouso, isto é, uma vida tranquila e modesta que se resguarda ao máximo de transtornos. Depois de alguma convivência com o que se denomina seres humanos, optarão por uma vida de isolamento ou, no caso de um intelecto elevado, de solidão. Pois quanto mais um homem encontra em si próprio, tanto menos precisa do exterior e menos úteis podem ser as demais pessoas. Por esse motivo, um homem de intelecto elevado tende à insociabilidade. Na verdade, se a qualidade da sociedade pudesse ser substituída pela quantidade, talvez valesse a pena viver no vasto mundo; mas, infelizmente, uma centena de tolos aglomerados ainda não produziria um homem inteligente.. Na solidão, onde todos se vêem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo. O tolo em trajes finos suspira sob o fardo de sua própria individualidade miserável, da qual não pode se livrar, enquanto o homem de grandes dotes povoa e anima com seus pensamentos a região mais deserta e desolada. Há, pois, muita verdade no que Sêneca diz: omnis stultitia laborat fastidio sui [toda estultice sofre o fastio de si mesma. (Epistulae, 9)], e também na sentença de Jesus de Sirach: A vida de um tolo é pior que a morte. Logo, em geral, constataremos que todos são sociáveis na medida em que são intelectualmente pobres e vulgares. Pois, neste mundo, temos pouca escolha entre a solidão e a vulgaridade.. O homem só pode ser si mesmo por completo enquanto estiver sozinho; por conseguinte, quem não ama a solidão, não ama a liberdade; pois o homem só é livre quando está sozinho.. A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade do espírito, esses bens supremos na terra depois da saúde, se encontram apenas na solidão e, para serem permanentes, apenas na reclusão mais profunda. Então, quando se é elevado e rico, se desfruta do estado mais feliz que se pode encontrar neste mundo miserável..O isolamento e a solidão têm seus males, mas, apesar de não podemos senti-los de uma só vez, ao menos podemos investigá-los. A sociedade, pelo contrário, é insidiosa; oculta males imensos, às vezes irreparáveis, detrás de uma aparência de passatempos, de conversas, de entretenimentos sociais e outras coisas semelhantes. Um estudo importante para a juventude seria aprender a suportar a solidão, visto que é a fonte de felicidade e de paz de espírito. De tudo que acabamos de expor, resulta que aquele que leva a melhor parte é o que só conta consigo mesmo e que pode ser si mesmo no todo. Até Cícero disse: Nemo potest non beatissimus esse qui est totus aptus ex sese, quique in se uno ponit omnia [não se pode senão ser muito feliz quando se é apto por si mesmo e se põe em si todas as coisas. (Paradoxa, II)]. Ademais, quanto mais o homem tem em si, menos podem servir-lhe os demais.. Esse sentimento de auto-suficiência é o que impede o homem de valor e mérito intrínsecos de realizar os consideráveis sacrifícios exigidos pela vida em comum, ainda mais de buscá-la à custa de uma evidente abnegação de si mesmo. É o sentimento oposto que torna os homens vulgares tão sociáveis e tão acomodados; visto que é mais fácil suportarem os demais que a si mesmos. Além disso, devemos lembrar que, neste mundo, aquilo que tem valor real não é apreciado e o que se aprecia não tem valor. Encontramos a prova e o resultado disso na vida retirada de qualquer homem de mérito e distinção. Portanto, demonstrará verdadeira sabedoria de vida aquele que, possuindo algum valor em si mesmo, restringe, se for preciso, as suas necessidades a fim de preservar ou ampliar sua liberdade e, assim, guarda-se o máximo possível da intimidade com os demais, visto que o contato com os homens é inevitável.. A gregariedade também pode ser considerada como uma forma de aquecimento mental análogo ao aquecimento corporal produzido quando se aglomeram em dias frios. Porém, aquele que possui muito calor intelectual não necessita de tais aglomerações. No último capítulo do segundo volume desta obra [Parerga e Paralipomena, § 396], o leitor encontrará um conto que ilustra a questão. A consequência de tudo isso é que a sociabilidade de cada qual está em razão inversa de seu valor intelectual; dizer que alguém 'é muito insociável' significa mais ou menos 'é um homem dotado de elevadas faculdades'.. A solidão confere uma vantagem dupla ao homem de intelecto superior; a primeira de estar consigo mesmo, e a segunda de não estar com os demais. Essa última será altamente valorizada se tivermos em mente quanta restrição, inconveniência e mesmo perigo estão envolvidos em toda sociedade. La Bruyère disse: tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls. [todo nosso mal vem de não podermos estar sós]. A gregariedade ou sociabilidade é uma das inclinações mais perigosas, e mesmo fatal, porque nos põe em contato com seres que, em grande maioria, são moralmente maus e intelectualmente limitados ou pervertidos. O homem insociável é aquele que não tem necessidade das pessoas; ter o bastante em si mesmo para que não se precise da sociedade é, portanto, uma grande felicidade. Pois quase todos os nossos males derivam da sociedade, e a paz de espírito que, depois da saúde, constitui o elemento mais essencial de nossa felicidade, é colocada em perigo por ela, de modo que não pode existir sem uma quantidade significativa de solidão. Os filósofos cínicos renunciaram a todas as posses para desfrutar da alegria proporcionada pela paz de espírito; aquele que, com o mesmo fim, renuncia à sociedade, escolhe o caminho mais prudente. Bernardinho de Saint-Pierre disse com beleza e razão: La diète des alimens nous rend la santé du corps, et celle des hommes la tranquillité de l’âme [a dieta dos alimentos nos proporciona a saúde do corpo, e a dos homens, a tranquilidade da alma]. Assim, aquele que cedo desenvolveu amizade ou mesmo afeto pela solidão adquiriu uma mina de ouro.. O amor pela solidão não pode existir como uma inclinação primitiva, mas deve nascer como um resultado da experiência e da reflexão; se produzirá sempre em relação com o desenvolvimento da força intelectual própria e em proporção ao avanço da idade; segue-se que, em geral, o instinto social do homem estará em relação inversa à sua idade. A criança pequena lança gritos de medo e aflição assim que é deixada sozinha por alguns momentos. Para os jovens, estarem sozinhos é uma severa penitência. Os adolescentes se reúnem entre si; unicamente os dotados de uma natureza mais nobre já buscam às vezes a solidão.. Em cada indivíduo, o aumento na inclinação ao retiro e à solidão sempre ocorrerá na medida de seu valor intelectual. Porque, como temos dito, não é uma inclinação puramente natural, provocada diretamente pela necessidade; é somente o efeito da experiência adquirida e da reflexão a esse respeito, especialmente da compreensão da natureza miserável, tanto moral como intelectual, da grande maioria dos homens. O pior que há nessa condição é que as imperfeições morais e intelectuais do indivíduo conspiram e trabalham em conjunto, produzindo os fenômenos mais repulsivos, que tornam desagradável e mesmo intolerável a convivência com a maioria dos homens. E ainda que haja neste mundo tantas coisas más, a sociedade é a pior delas... No fundo, é um sentimento aristocrático que alimenta a inclinação ao isolamento e à solidão. Todos os desgraçados são sociáveis; que pena. Por outro lado, vemos que um homem é de natureza nobre quando não encontra prazer nos demais; sempre prefere a solidão em vez de companhia.. Com o passar dos anos, chega a perceber que, salvo raras exceções, no mundo não há meio termo entre solidão e vulgaridade.. A solidão é o destino de todos homens extraordinários, e isso às vezes lhes entristecerá; porém, sempre a escolherão como o menor dos males..Quando um homem julga a sociedade desagradável e se sente justificado em fugir para a solidão, comumente mostra-se incapaz de suportar seu vazio, especialmente se é jovem. Aconselho que se habitue a levar à sociedade uma parte de sua solidão, e que aprenda a estar sozinho, até certo ponto, ainda que em companhia. Por conseguinte, que não comunique imediatamente aos demais aquilo que pensa; por outro lado, que não atribua demasiado valor ao que dizem. Pelo contrário, que não espere muito deles, tanto moral como intelectualmente, e que, desse modo, em relação às suas opiniões, exercite aquela indiferença que é o modo mais seguro de sempre praticar uma louvável tolerância. Ainda que esteja entre eles, não estará completamente em sua companhia, conferindo às suas relações um caráter puramente objetivo. Isso o protegerá de contatos demasiado íntimos com a sociedade e, por conseguinte, de todo contágio e, com maior motivo, contra toda agressão.. Para um jovem, tanto na perspectiva intelectual quanto moral, é um mau sinal se, com pouca idade, já sabe como lidar com as pessoas e sente-se à vontade com elas, envolvendo-se em seus assuntos como se estivesse preparado de antemão; isso indica vulgaridade. Pelo contrário, uma atitude de assombro, surpresa, desagrado e desconforto é, em tais circunstâncias, o indício de uma natureza de espécie nobre." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Os homens inteligentes e sábios buscarão, primeiramente, se libertar do sofrimento e das moléstias, e encontrar quietude e repouso, isto é, uma vida tranquila e modesta que se resguarda ao máximo de transtornos. Depois de alguma convivência com o que se denomina seres humanos, optarão por uma vida de isolamento ou, no caso de um intelecto elevado, de solidão. Pois quanto mais um homem encontra em si próprio, tanto menos precisa do exterior e menos úteis podem ser as demais pessoas. Por esse motivo, um homem de intelecto elevado tende à insociabilidade. Na verdade, se a qualidade da sociedade pudesse ser substituída pela quantidade, talvez valesse a pena viver no vasto mundo; mas, infelizmente, uma centena de tolos aglomerados ainda não produziria um homem inteligente.. Na solidão, onde todos se vêem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo. O tolo em trajes finos suspira sob o fardo de sua própria individualidade miserável, da qual não pode se livrar, enquanto o homem de grandes dotes povoa e anima com seus pensamentos a região mais deserta e desolada. Há, pois, muita verdade no que Sêneca diz: omnis stultitia laborat fastidio sui [toda estultice sofre o fastio de si mesma. (Epistulae, 9)], e também na sentença de Jesus de Sirach: A vida de um tolo é pior que a morte. Logo, em geral, constataremos que todos são sociáveis na medida em que são intelectualmente pobres e vulgares. Pois, neste mundo, temos pouca escolha entre a solidão e a vulgaridade.. O homem só pode ser si mesmo por completo enquanto estiver sozinho; por conseguinte, quem não ama a solidão, não ama a liberdade; pois o homem só é livre quando está sozinho.. A paz verdadeira e profunda do coração e a perfeita tranquilidade do espírito, esses bens supremos na terra depois da saúde, se encontram apenas na solidão e, para serem permanentes, apenas na reclusão mais profunda. Então, quando se é elevado e rico, se desfruta do estado mais feliz que se pode encontrar neste mundo miserável..O isolamento e a solidão têm seus males, mas, apesar de não podemos senti-los de uma só vez, ao menos podemos investigá-los. A sociedade, pelo contrário, é insidiosa; oculta males imensos, às vezes irreparáveis, detrás de uma aparência de passatempos, de conversas, de entretenimentos sociais e outras coisas semelhantes. Um estudo importante para a juventude seria aprender a suportar a solidão, visto que é a fonte de felicidade e de paz de espírito. De tudo que acabamos de expor, resulta que aquele que leva a melhor parte é o que só conta consigo mesmo e que pode ser si mesmo no todo. Até Cícero disse: Nemo potest non beatissimus esse qui est totus aptus ex sese, quique in se uno ponit omnia [não se pode senão ser muito feliz quando se é apto por si mesmo e se põe em si todas as coisas. (Paradoxa, II)]. Ademais, quanto mais o homem tem em si, menos podem servir-lhe os demais.. Esse sentimento de auto-suficiência é o que impede o homem de valor e mérito intrínsecos de realizar os consideráveis sacrifícios exigidos pela vida em comum, ainda mais de buscá-la à custa de uma evidente abnegação de si mesmo. É o sentimento oposto que torna os homens vulgares tão sociáveis e tão acomodados; visto que é mais fácil suportarem os demais que a si mesmos. Além disso, devemos lembrar que, neste mundo, aquilo que tem valor real não é apreciado e o que se aprecia não tem valor. Encontramos a prova e o resultado disso na vida retirada de qualquer homem de mérito e distinção. Portanto, demonstrará verdadeira sabedoria de vida aquele que, possuindo algum valor em si mesmo, restringe, se for preciso, as suas necessidades a fim de preservar ou ampliar sua liberdade e, assim, guarda-se o máximo possível da intimidade com os demais, visto que o contato com os homens é inevitável.. A gregariedade também pode ser considerada como uma forma de aquecimento mental análogo ao aquecimento corporal produzido quando se aglomeram em dias frios. Porém, aquele que possui muito calor intelectual não necessita de tais aglomerações. No último capítulo do segundo volume desta obra [Parerga e Paralipomena, § 396], o leitor encontrará um conto que ilustra a questão. A consequência de tudo isso é que a sociabilidade de cada qual está em razão inversa de seu valor intelectual; dizer que alguém 'é muito insociável' significa mais ou menos 'é um homem dotado de elevadas faculdades'.. A solidão confere uma vantagem dupla ao homem de intelecto superior; a primeira de estar consigo mesmo, e a segunda de não estar com os demais. Essa última será altamente valorizada se tivermos em mente quanta restrição, inconveniência e mesmo perigo estão envolvidos em toda sociedade. La Bruyère disse: tout notre mal vient de ne pouvoir être seuls. [todo nosso mal vem de não podermos estar sós]. A gregariedade ou sociabilidade é uma das inclinações mais perigosas, e mesmo fatal, porque nos põe em contato com seres que, em grande maioria, são moralmente maus e intelectualmente limitados ou pervertidos. O homem insociável é aquele que não tem necessidade das pessoas; ter o bastante em si mesmo para que não se precise da sociedade é, portanto, uma grande felicidade. Pois quase todos os nossos males derivam da sociedade, e a paz de espírito que, depois da saúde, constitui o elemento mais essencial de nossa felicidade, é colocada em perigo por ela, de modo que não pode existir sem uma quantidade significativa de solidão. Os filósofos cínicos renunciaram a todas as posses para desfrutar da alegria proporcionada pela paz de espírito; aquele que, com o mesmo fim, renuncia à sociedade, escolhe o caminho mais prudente. Bernardinho de Saint-Pierre disse com beleza e razão: La diète des alimens nous rend la santé du corps, et celle des hommes la tranquillité de l’âme [a dieta dos alimentos nos proporciona a saúde do corpo, e a dos homens, a tranquilidade da alma]. Assim, aquele que cedo desenvolveu amizade ou mesmo afeto pela solidão adquiriu uma mina de ouro.. O amor pela solidão não pode existir como uma inclinação primitiva, mas deve nascer como um resultado da experiência e da reflexão; se produzirá sempre em relação com o desenvolvimento da força intelectual própria e em proporção ao avanço da idade; segue-se que, em geral, o instinto social do homem estará em relação inversa à sua idade. A criança pequena lança gritos de medo e aflição assim que é deixada sozinha por alguns momentos. Para os jovens, estarem sozinhos é uma severa penitência. Os adolescentes se reúnem entre si; unicamente os dotados de uma natureza mais nobre já buscam às vezes a solidão.. Em cada indivíduo, o aumento na inclinação ao retiro e à solidão sempre ocorrerá na medida de seu valor intelectual. Porque, como temos dito, não é uma inclinação puramente natural, provocada diretamente pela necessidade; é somente o efeito da experiência adquirida e da reflexão a esse respeito, especialmente da compreensão da natureza miserável, tanto moral como intelectual, da grande maioria dos homens. O pior que há nessa condição é que as imperfeições morais e intelectuais do indivíduo conspiram e trabalham em conjunto, produzindo os fenômenos mais repulsivos, que tornam desagradável e mesmo intolerável a convivência com a maioria dos homens. E ainda que haja neste mundo tantas coisas más, a sociedade é a pior delas... No fundo, é um sentimento aristocrático que alimenta a inclinação ao isolamento e à solidão. Todos os desgraçados são sociáveis; que pena. Por outro lado, vemos que um homem é de natureza nobre quando não encontra prazer nos demais; sempre prefere a solidão em vez de companhia.. Com o passar dos anos, chega a perceber que, salvo raras exceções, no mundo não há meio termo entre solidão e vulgaridade.. A solidão é o destino de todos homens extraordinários, e isso às vezes lhes entristecerá; porém, sempre a escolherão como o menor dos males..Quando um homem julga a sociedade desagradável e se sente justificado em fugir para a solidão, comumente mostra-se incapaz de suportar seu vazio, especialmente se é jovem. Aconselho que se habitue a levar à sociedade uma parte de sua solidão, e que aprenda a estar sozinho, até certo ponto, ainda que em companhia. Por conseguinte, que não comunique imediatamente aos demais aquilo que pensa; por outro lado, que não atribua demasiado valor ao que dizem. Pelo contrário, que não espere muito deles, tanto moral como intelectualmente, e que, desse modo, em relação às suas opiniões, exercite aquela indiferença que é o modo mais seguro de sempre praticar uma louvável tolerância. Ainda que esteja entre eles, não estará completamente em sua companhia, conferindo às suas relações um caráter puramente objetivo. Isso o protegerá de contatos demasiado íntimos com a sociedade e, por conseguinte, de todo contágio e, com maior motivo, contra toda agressão.. Para um jovem, tanto na perspectiva intelectual quanto moral, é um mau sinal se, com pouca idade, já sabe como lidar com as pessoas e sente-se à vontade com elas, envolvendo-se em seus assuntos como se estivesse preparado de antemão; isso indica vulgaridade. Pelo contrário, uma atitude de assombro, surpresa, desagrado e desconforto é, em tais circunstâncias, o indício de uma natureza de espécie nobre." [Schopenhauer - Aforismos para a Sabedoria de Vida]
"Cada um de nós nasceu com uma dose de pureza, predestinada a ser corrompida pelo comércio com os homens, por esse pecado contra a solidão. Pois cada um de nós faz o impossível para não se ver entregue a si mesmo. O semelhante não é fatalidade, mas tentação de decadência. Incapazes de guardar nossas mãos limpas e nossos corações intactos, nos sujamos ao contato de suores estranhos, chafurdamos sedentos de nojo e entusiastas de pestilência na lama unânime. E quando sonhamos mares convertidos em água benta, é tarde demais para mergulharmos neles, e nossa corrupção demasiado profunda nos impede de afogar-no ali: o mundo infectou nossa solidão." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Exegese da Decadência]
SOBRE ASSUNTOS DIVERSOS:
"Em toda a parte e em todo o tempo, tem havido grande descontentamento contra os governos, as leis e as instituições públicas; é o resultado de estarem sempre dispostos a torná-los responsáveis da miséria inseparável da existência humana." [Schopenhauer]
"Tempo é um elemento em nosso cérebro que, por meio da duração, cria uma semelhança de realidade na existência absolutamente vazia das coisas e de nós mesmos." [A. Schopenhauer - O Vazio da Existência]
"Os esforços e as lutas contra as dificuldades são naturais para o homem como cavar é natural para uma toupeira." [Schopenhauer - Aforismos para Sabedoria de Vida]
"Quanta tolice há no homem que se arrepende e lamenta por não ter aproveitado oportunidades passadas, as quais poderiam ter-lhe assegurado esta ou aquela felicidade ou prazer! O que resta desses agora? Apenas o fantasma de uma lembrança!" [A. Schopenhauer - O Vazio da Existência]
"O médico vê o homem em toda a sua fraqueza; o jurista vê-o em toda a sua maldade; o teólogo, em toda a sua imbecilidade." [Schopenhauer]
"A modéstia é uma virtude inventada em favor dos idiotas; pois exige que cada qual fale de si como se fosse um; isso estabelece uma igualdade de nível admirável, fazendo parecer que no mundo não existe nada além de idiotas." [Schopenhauer - Aforismos para Sabedoria de Vida]
"Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença... Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo menos, não hesitariam em impor-lha a sangue-frio?" [Schopenhauer]
"Cada um sofre em sua própria carne esta unidade de desastre que é o fenômeno homem. E o único sentido do tempo é multiplicar essas unidades, aumentar indefinidamente esses sofrimentos verticais que se apóiam sobre uma migalha de matéria, sobre o orgulho de um nome próprio e sobre uma solidão insuprimível." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, O Animal Indireto]
Sobre a Diversão:
"A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo.. Ao processo de trabalho na fábrica e no escritório só se pode escapar adaptando-se a ele durante o ócio. Eis aí a doença incurável de toda diversão.. Divertir-se significa estar de acordo. Isso só é possível se isso se isola do processo social em seu todo, se idiotiza e abandona desde o início a pretensão inescapável de toda obra, mesmo da mais insignificante, de reflectir o todo em sua limitação. Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é a sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação." [Theodor W. Adorno / Max Horkheimer - Dialética do Esclarecimento; A Indústria Cultural: O Esclarecimento Como Mistificação das Massas]
Comentário: Diversão é resignação mediante entorpecimento mental. E, de fato, a teoria de Adorno tem embasamento empírico: vide aquelas pessoas vulgares que vedam ao pensamento "toda a negatividade". Elas estão sempre em busca de diversão.
Sobre o riso:
"O riso, tanto o riso da reconciliação quanto o riso de terror, acompanha sempre o instante em que o medo passa. Ele indica a liberação, seja do perigo físico, seja das garras da lógica. O riso da reconciliação é como que o eco do facto de ter escapado à potência, o riso mau vence o medo passando para o lado das instâncias que inspiram temor. Ele é o eco da potência como algo de inescapável." [Theodor W. Adorno / Max Horkheimer - Dialética do Esclarecimento; A Indústria Cultural: O Esclarecimento Como Mistificação das Massas]
"O egoísmo inspira um tal horror que inventamos a gentileza para o ocultar como uma parte vergonhosa; mas ele rasga todos os véus, e trai-se em todo o encontro em que nos esforçamos instintivamente por utilizar cada novo conhecimento a fim de servir alguns dos nossos inúmeros projetos. O nosso primeiro pensamento é sempre saber se tal pessoa nos pode ser útil para alguma coisa. Se nos não pode servir, não tem já valor algum... "[Schopenhauer]
"O egoísmo, por natureza, não tem limites; o homem só tem um desejo incondicionado, conservar a existência, eximir-se a qualquer dor, a qualquer privação; o que quer é a maior soma possível de bem estar, é a posse de todos os gozos que é capaz de imaginar, e que se esforça por variar e desenvolver incessantemente. Qualquer obstáculo que surja entre o seu egoísmo e as suas cobiças excita-lhe a raiva, a cólera, o ódio: é um inimigo que é preciso esmagar. Desejaria tanto quanto possível gozar tudo, possuir tudo; não o podendo, quereria pelo menos dominar tudo: "Tudo para mim, nada para os outros", é o seu lema." [Schopenhauer]
"Numa sociedade civilizada, o homem a todo momento necessita da ajuda e cooperação de grandes multidões, e sua vida inteira mal seria suficiente para conquistar a amizade de algumas pessoas. No caso de quase todas as outras raças de animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, é totalmente independente e, em seu estado natural, não tem necessidade da ajuda de nenhuma outra criatura vivente. O homem, entretanto, tem necessidade quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar esta ajuda simplesmente da benevolência alheia. Ele terá maior probabilidade de obter o que quer, se conseguir interessar a seu favor a auto-estima dos outros, mostrando-lhes que é vantajoso para eles fazer-lhe ou dar-lhe aquilo de que ele precisa. É isto o que faz toda pessoa que propõe um negócio a outra. Dê-me aquilo que eu quero, e você terá isto aqui, que você quer — esse é o significado de qualquer oferta desse tipo; e é dessa forma que obtemos uns dos outros a grande maioria dos serviços de que necessitamos. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles. Ninguém, exceto o mendigo, sujeita-se a depender sobretudo da benevolência dos semelhantes." [Adam Smith - A Riqueza das Nações, livro 1, Capítulo 1]
Dolmancé (personagem fictício):
"Não há virtude mais necessária na vida do que a falsidade, verdade certa que por si só prova sua indispensabilidade. Toda gente a emprega; basta isso para que um indivíduo sincero, sendo único, sobre no meio duma sociedade em que só há gente falsa! Se é verdade, como pretendem, que as virtudes sejam de alguma utilidade na vida civil, como quer você que a pessoa sem vontade, nem poder ou dom de virtude (o que acontece com a maior parte) possa deixar de ser hipócrita e obrigada a fingir, para obter, por sua vez, um pouco da porção de felicidade que seus concorrentes lhe roubam? De fato, é seguramente a virtude, ou a aparência da virtude, que se torna necessária ao homem da sociedade. Não há a menor duvida: basta a aparência. O homem que possui essa aparência possui tudo; no mundo, as pessoas apenas roçam de leve o homem, por isso basta uma casquinha. A prática da virtude é útil tão somente ao homem que a possui, os outros nada aproveitam dela; basta parecer virtuoso, é inútil sê-lo. A falsidade é o melhor meio para obter êxito, quanto mais falso, mais o homem sobe, tudo obtém deslumbrando os restantes com falsas aparências. Os que se enganam com os falsos nem se queixam para não dar o braço a torcer; o falso tem sempre razão, ele avançará na vida deixando para trás os sinceros; enriquecerá à custa alheia, cativará a opinião pública e se alguém falar mal dele, ninguém acreditará. Que a mais insigne falsidade seja continuadamente nosso empenho; ela é a chave de todas as graças, favores, reputações, riquezas. Ser canalha é um prazer incomparável, que de tudo nos consolará." [Donatien Alphonse de Sade - A Filosofia na Alcova]
* O último autor mencionado é mais conhecido como Marquês de Sade.
"O homem no íntimo é um animal selvagem, uma fera. Só o conhecemos domesticado, domado, nesse estado que se chama civilização: por isso recuamos assustados ante as explosões acidentais do seu temperamento. Se caíssem os ferrolhos e as cadeias da ordem legal, se a anarquia rebentasse, veríamos então o que é o homem... Esses milhares de entes que temos à vista, obrigando-se mutuamente a respeitar a paz, são outros tantos tigres e lobos, que uma forte focinheira impede de morder. Suponha-se a força pública suprimida, a focinheira removida, recuar-se-ia de medo ante o espetáculo que se teria à vista, e que todos imaginam facilmente; não é isto confessar quão pouco as pessoas se fundam na religião, na consciência, na moral, seja qual for a sua base?" [Schopenhauer]
Uma vez abertas as jaulas e removidas as "focinheiras", eis o que acontece:
"Eles gozam aí da liberdade de toda coerção social, eles buscam nas regiões selvagens uma compensação para a tensão provocada por um longo encerramento e clausura na paz da comunidade, eles retornam à inocência moral do animal de rapina, como monstros a se rejubilar, talvez saindo de uma série horrorosa de assassinatos, incêndios, estupros, torturas, com a insolência e a serenidade de quem cometeu apenas uma travessura de estudantes, convencidos de que os poetas terão agora e por muito tempo algo a cantar e a celebrar... Essa audácia de raças nobres, louca, absurda, súbita, tal como se exprime, o próprio carácter imprevisível e improvável de seus empreendimentos… sua indiferença e desprezo por segurança, corpo, vida, conforto, sua terrível jovialidade e a profundidade do prazer em destruir, do prazer que se tira de todas as volúpias da vitória e da crueldade...” [Friedrich Nietzsche - Genealogia da Moral]
"Quem não se entregou às volúpias da angústia, quem não saboreou em pensamento os perigos da própria extinção nem degustou aniquilamentos cruéis e doces, não se curará jamais da obsessão da morte: será atormentado por ela, por haver-lhe resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror, e meditando sua podridão, reduziu-se deliberadamente a cinzas, esse olhará para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado que não pode mais viver. Seu 'método' o terá curado da vida e da morte." [Emil Cioran - Breviário de Decomposição, Variações sobre a Morte]
"Em qualquer grande cidade onde o azar me leva, surpreende-me que não aconteçam sublevações diárias, massacres, uma carnificina inominável, uma desordem de fim de mundo. Como em um espaço tão reduzido, podem coexistir tantos homens sem destruir-se, sem odiar-se mortalmente? NA VERDADE, ODEIAM-SE, mas não estão a altura do seu ódio. Esta mediocridade, esta impotência, salva a sociedade; assegura sua duração, sua estabilidade." [Emil Cioran - História e Utopia]
"A origem de todas as sociedades, grandes e duradouras, não é a boa vontade mútua que os homens tem entre si, mas sim o medo mútuo que nutrem uns pelos outros." [Thomas Hobbes - Do Cidadão, Parte 1, Capítulo 1]
"Os homens serão sempre maus se por uma necessidade não forem tornados bons." [Maquiavel - O Príncipe]
"A língua do homem é como uma trombeta de guerra e sedição." [T. Hobbes - Do Cidadão, Parte 1, Capítulo 5]
"Cada um considera-se o centro do mundo, açambarca tudo; até as próprias agitações dos impérios, se consideram primeiro sob o ponto de vista do interesse de cada um, por muito ínfimo e distante que possa estar. Haverá contraste mais surpreendente? De um lado, esse interesse superior, exclusivo, que cada um tem por si mesmo, e do outro, esse olhar indiferente que lança a todos os homens. Chega a ser uma coisa cômica, essa convicção de tanta gente procedendo como se só eles tivessem uma existência real, e os seus semelhantes fossem meras sombras, puros fantasmas." [Schopenhauer]
Dolmancé (mencionado acima); sobre a crueldade:
"Os prazeres da crueldade são os terceiros que prometemos analisar. Muito comuns entre os homens de hoje, eis os argumentos dos quais se servem para legitimá-los: o alvo das pessoas que se entregam à volúpia é ficarem excitadas; queremos nos excitar por meios mais ativos; assim sendo, pouco nos importa se nossos procedimentos agradarão ou não ao objetivo que serve; só se trata de pôr em movimento a massa dos nossos nervos pelo choque mais violento possível. Ora, como a dor afeta mais vivamente que o prazer, o choque resultante dessa sensação produzida sobre o parceiro será de vibração mais vigorosa e repercutirá mais energicamente em nós; o espírito animal entrará em circulação e inflamará os órgãos da volúpia predispondo-os ao mais intenso prazer. Ora, os efeitos do prazer são mais difíceis na mulher, um homem feio ou velho jamais conseguirá produzi-los; por isso eles preferem ocasionar a dor, cujas vibrações são mais ativas. Objetarão certamente: os homens que têm essa mania não refletem que é falta de caridade fazer sofrer o próximo, sobretudo para obter maior gozo? É que, nesse ato, os canalhas só pensam em si próprios, seguem o impulso da natureza e desde que gozem bastante o resto não lhes importa, nunca sentimos as dores alheias. Pelo contrário, ver sofrer, é uma grande sensação. Para que poupar um indivíduo com o qual não nos importamos? Essa dor não nos custará uma só lágrima e nos ocasionará um prazer. Haverá na natureza um só impulso que nos aconselhe preferir o próximo a nós mesmos? Cada um de nós não é para si mesmo o mundo inteiro, o centro do universo? Nem me falem na voz quimérica que diz 'não façais aos outros o que não quereis que se vos faça'. Grandes imbecis! A natureza não nos aconselha outra coisa exceto que gozemos, que nos divirtamos; não conhecemos outro impulso, outra aspiração. Nunca devemos nos incomodar com o que pode acontecer aos outros... A natureza é a nossa mãe e só nos fala de nós mesmos, sua voz é a mais egoísta. O mais claro conselho que nos dá é que tratemos de gozar, de nos deleitar, mesmo a custo de quem quer que seja! Os outros nos podem fazer o mesmo, é verdade, mas o mais forte vencerá. A natureza nos criou para o estado primitivo de guerra, de destruição perpétua, único estado em que devemos permanecer para realizar seus fins.. Eis, querida Eugênia, como raciocinam os libertinos; acrescento por experiência, por estudos particulares, que a crueldade, longe de ser um vício, é o primeiro sentimento que a natureza imprime no homem. A criança quebra seus brinquedos, morde o mamilo da ama, e estrangula pássaros muito antes de atingir a idade da razão. Todos os animais respiram crueldade, pois neles as leis da natureza são ainda mais fortes que no homem, assim como nos selvagens elas falam mais alto ainda do que no homem da cidade. Nascemos com uma dose de crueldade que só a educação consegue modificar, mas a educação nada tem a ver com a natureza, pelo contrário, é nociva a ela como a cultura é nociva às árvores.. A crueldade é a energia do homem que a civilização ainda não corrompeu, é, portanto, uma virtude e não um vício.. No estado de incivilização, se ela age sobre o forte será por ele sobrepujada, se age sobre o fraco não tem o menor inconveniente, pois o fraco deve ceder ao forte pelas leis dessa mesma natureza.. Analisaremos a crueldade nos prazeres lúbricos do homem. Verá, linda Eugênia, os diferentes excessos aos quais ele se entregou; sua imaginação ardente compreenderá logo que, nas almas fortes e estóicas, essa crueldade não deve ter limites. Nero, Tibério e Heliogábalo imolavam meninos para ficarem de pau duro; o marechal de Retz, Charolais, o tio de Condé cometeram assassínios em lúbricas orgias. O primeiro confessou no seu interrogatório que não conhecia volúpia mais deliciosa do que torturar crianças de ambos os sexos; acharam mais de oitocentas, imoladas nos seus castelos da Bretanha. Tudo isso se concebe perfeitamente, como acabei de demonstrar. Nossa constituição, nossos órgãos, o curso dos humores, a energia dos espíritos animais, eis as causas, físicas que criaram Titos ou Neros, as Messalinas ou as Chantal. Não há motivo algum da gente se orgulhar da virtude, nem de se arrepender do vício, assim como é inútil acusar a natureza de ter criado um justo ou um facínora; ela terá agido segundo seus planos aos quais nos devemos submeter.. Examinemos a crueldade das mulheres, bem mais ativa que a dos homens, em razão do poder excessivo da sensibilidade de seus órgãos. Nós distinguimos, em geral, duas espécies de crueldade: a que nasce da estupidez que, sem razão e sem análise, assimila o indivíduo às feras, não produz prazer algum; é apenas uma inclinação natural; as brutalidades por ela causadas não são perigosas, pois é fácil delas nos defendermos. A outra espécie de crueldade, fruto da extrema sensibilidade dos órgãos, não é conhecida senão pelos seres extremamente delicados; é uma delicadeza extrema e refinada que põe em movimento todos os recursos da maldade. Poucas pessoas podem perceber tais diferenças, poucas a podem sentir; entretanto, elas existem. É este segundo gênero de crueldade que mais se encontra entre as mulheres; são conduzidas por excesso de sensibilidade, a força do espírito torna-as ferozes; por isso mesmo são encantadoras, fazem todos perderem a cabeça por elas. Infelizmente a rigidez absurda dos nossos costumes deixa pouco terreno a essa crueldade, obrigando-as a se esconder, a dissimular, a cobrir suas inclinações naturais por atos ostensivos de beneficência que elas no fundo odeiam. É apenas veladamente, com precaução, auxiliadas por amigos certos, que conseguem satisfazer seus desejos, coitadinhas! Se quisermos conhecê-las será preciso vê-Ias assistindo a um duelo, um incêndio, um combate, uma batalha; mas tudo isso é pouco para elas e as coitadas têm que se conter. Falemos de algumas mulheres desse gênero: Zíngua, rainha de Angola, a mais cruel das mulheres, imolava seus amantes logo depois de gozá-los; assistia a combates entre guerreiros, entregando-se ao vencedor; para se distrair fazia moer num pilão todas as mulheres que tivessem engravidado antes dos trinta anos. Zoé, mulher dum imperador chinês, não sentia prazer maior do que assistir à execução de criminosos; se não os houvesse, imolava escravas enquanto era penetrada, e tanto mais gozava nesse instante quanto mais as infelizes sofriam; foi inventora da famosa coluna de bronze oca que fazia aquecer em brasa.. Teodora, mulher de Justiniano, adorava presenciar à castração dos eunucos. Messalina se fazia gozar enquanto, pelo processo da masturbação, seus escravos exauriam vários homens diante dela. As floridianas faziam engrossar o membro dos maridos colocando sobre a glande pequenos insetos venenosos, amarravam-nos para essa operação e reuniam-se em grupo para efetuar essa operação mais rapidamente. Quando os espanhóis chegaram a esse país, elas próprias agarravam os maridos para que fossem assassinados pelos conquistadores. La Voisin, La Brinvilliers, envenenavam apenas por prazer. A história fornece milhares de exemplos da crueldade feminina.." [Sade - A Filosofia na Alcova]
Nudez, Prostituição e Incesto:
"Se estivesse nas intenções da natureza que o homem fosse pudico ela, seguramente, não o teria feito nascer nu. Uma infinidade de povos, menos degradados que nós pela civilização, vivem nus e disso não têm a menor vergonha. Estejamos certos de que o uso de vestimentas teve por única base a inclemência do ar e a coqueteria das mulheres; elas se aperceberam que perderiam logo todos os atrativos do desejo se não os escondessem em lugar de os deixar aparecer. Elas sentiram que, como a natureza não as criou sem defeito, elas se assegurariam bem mais facilmente de todos os meios de agradar, disfarçando estes defeitos com enfeites; assim, o pudor, longe de ser uma virtude, só é um dos primeiros efeitos da corrupção, um dos primeiros meios da coqueteria das mulheres. Licurgo e Solon, convencidos de que os resultados do impudor mantêm o cidadão num estado imoral indispensável às leis do governo republicano, obrigaram as moças a se apresentarem nuas nos teatros. Roma logo imitou este exemplo: dançava-se nus nos jogos de Flora; a maior parte dos mistérios pagãos se celebravam assim. A nudez foi mesmo considerada como virtude em alguns povos. De qualquer maneira, do impudor nascem as inclinações luxuriosas e o que resulta destas inclinações compõem os pretensos crimes que analisamos e cujo primeiro efeito é a prostituição.. Entre os Tártaros, quanto mais uma mulher se prostituía, mais era considerada: ela trazia publicamente no pescoço as marcas de suas ações e as que não as trouxessem não eram estimadas. No Peru, as próprias famílias entregam as mulheres e as donzelas aos estrangeiros que por lá passam; alugam-se lá as mulheres como os cavalos ou os veículos. Volumes, enfim, não bastariam para demonstrar que a luxúria não foi jamais considerada como crime por nenhum dos povos sábios da terra. Todos os filósofos sabem perfeitamente que é aos impostores cristãos que nós devemos o fato dela ter sido considerada um crime; os padres tinham seus motivos ao nos interdizer a luxúria; esta recomendação, reservando-lhes o conhecimento e o poder de absolvição destes pecados, dava-lhes um incrível império sobre as mulheres e lhes abria uma carneira de lubricidade cuja extensão não tinha limites.. O incesto, será tão perigoso? Não, absolutamente; ele estende os laços de família e torna por conseguinte mais ativo o amor dos cidadãos pela pátria. Ele nos foi ditado pelas primeiras leis da natureza, nós o experimentamos, e o gozo dos objetos que nos pertencem parece-nos sempre mais delicioso. As primitivas instituições favorecerem o incesto; encontramo-lo na origem das sociedades; é consagrado em todas as religiões. Todas as leis o favorecem; se percorremos o universo, encontramos o incesto estabelecido em todos os lugares. Os negros da Costa do Ouro e do Rio Gabão entregam suas mulheres a seus próprios filhos; o filho mais velho do reino de Judá deve copular com a mulher de seu pai; os povos do Chile deitam-se indiferentemente com as próprias irmãs e filhas e casam-se às vezes com a mãe e a filha juntamente. Em uma palavra, ouso sustentar que o incesto deveria ser a lei em todo o governo cuja base fosse a fraternidade." [Sade - A Filosofia na Alcova]
Dolmancé:
"Esta fraqueza à qual a natureza condenou as mulheres prova ser sua intenção que o homem, no gozo de toda sua força, deve exercê-la para praticar todas as violências que lhe ocorra e, mesmo, se desejar, todas as torturas. Teria o momento crítico da volúpia o caráter de violência que possui se a natureza, esta mãe do gênero humano, não tivesse a intenção de aliar o coito e a ira? Qual será o homem bem constituído, numa palavra, o homem dotado de órgãos vigorosos que não desejará, nesta ocasião, de uma maneira ou de outra, fazer sofrer sua companheira? Sei perfeitamente que uma infinidade de imbecis, que jamais percebem suas próprias sensações, não compreenderão bem o sistema que instituo; mas que importam estes imbecis? Não é a eles que me dirijo. Deixo estes desenxabidos adoradores aos pés de suas insolentes Dulcinéias, à espera do suspiro que os fará felizes." [Sade - A Filosofia na Alcova]
Sobre o Assassinato:
"O assassinato será crime aos olhos da natureza? Eis a primeira pergunta.. O que é o homem, e que diferença existe entre ele e as plantas e todos os animais da terra? Nenhuma, indiscutivelmente. Colocado fortuitamente como eles sobre o globo, nasce como eles, propaga-se, cresce e declina como eles; como eles chega à velhice; como eles tomba no nada ao termo que a natureza determina para cada espécie. Se essas analogias são tão exatas que tornam impossível à observação do filósofo perceber qualquer dessemelhança, haverá igual maldade em matar um animal como em matar um homem. Não se pode negar que tanto faz destruir um homem como um animal. Mas, a destruição de todo o animal não será um crime, como acreditavam os pitagóricos e como acreditam os habitantes das margens do Ganges? Antes de responder a isso, recordemos aos leitores que nós só examinamos o problema do ponto de vista da natureza. Em seguida o examinaremos em relação aos homens. Ora, pergunto, para que servirão à natureza estes indivíduos que não lhe custam nem a menor pena nem o menor cuidado? O trabalhador estima sua obra em razão do trabalho que ela lhe custa e do tempo que emprega. Ora, custa o homem alguma coisa à natureza? De que se compõe os seres que nascem? Os três elementos que os formam não resultam da primitiva destruição de outros corpos? Se todos os indivíduos fossem eternos, não se tornaria impossível à natureza a criação de novos? Se pois, a eternidade dos seres é impossível, a sua destruição se torna uma lei da natureza. Se elas lhe são tão úteis ao ponto de não as poder dispensar, e se não pode criar sem se valer das massas de destruição que a morte lhe prepara, a idéia de aniquilamento que relacionamos com a morte não será real. O que chamamos o fim de cada animal não será na verdade um fim, mas simples transmutação que tem por base o perpétuo movimento, verdadeira essência da matéria, que todos os filósofos modernos consideram como sua lei fundamental. A morte, segundo esses princípios irrefutáveis, não é mais que uma mudança de forma, uma imperceptível passagem de uma existência para outra: é o que Pitágoras chamava metempsicose. Admitidas estas verdades, pode-se sustentar, por acaso, que a destruição seja um crime? Ousareis dizer que a transmutação é uma destruição? Sem duvida que não! Seria preciso, para isso, admitir um instante de inação, um momento de repouso da matéria. Ora, jamais encontrareis tal momento; assim que morre um animal formam-se os vermes; a vida desses vermes é um efeito necessário da morte: ousareis dizer que um agrada mais à natureza do que o outro? Para isso seria necessário provar uma coisa impossível, isto é, que a forma comprida ou quadrada é mais útil, mais agradável do que a oblonga ou triangular. Será preciso provar que, em face das planos sublimes da natureza, um vadio que se ceva na inação ou na indolência é mais útil do que o cavalo, cujo serviço é tão importante, ou o boi, cujo corpo é tão precioso. Seria necessário sustentar que a cobra venenosa é melhor do que o cão fiel. Ora, como todos esses argumentos são insustentáveis, teremos que concordar que é impossível aniquilar as obras da natureza, pois a única coisa que conseguimos, entregando-nos à destruição, é operar uma variação de forma que não pode extinguir a vida. É, pois, superior às forças humanas poder provar que existe crime na pretensa destruição de uma criatura de qualquer idade, sexo ou espécie. Conduzidos ainda mais pela série de nossos argumentos, que se encadeiam uns aos outros, teremos que convir enfim, que, longe de prejudicar a natureza, a ação que praticais variando as formas de suas diferentes obras, é para ela vantajosa, pois que lhe forneceis assim a matéria prima para suas construções. Estas seriam impossíveis se ninguém aniquilasse nada; deixai agir a natureza, me direis. De fato deixemo-la agir; mas são os seus impulsos que o homem segue quando pratica o homicídio; é ela que o aconselha e, o homem que destrói seu semelhante está, para a natureza, como a peste ou a fome, igualmente enviadas por ela, que se serve de todos os meios para conseguir mais rapidamente essa matéria prima de destruição, absolutamente necessária às suas obras.. Quem, senão a natureza, nos aconselha os ódios pessoais, as vinganças, as guerras, enfim, todas as causas de perpétuo assassínio? Ora, se ela nos aconselha é porque disso necessita. Como podemos, em conseqüência, nos supor culpados para com ela, se não fazemos mais do que seguí-la? Já dissemos mais do que o necessário, para convencer qualquer leitor esclarecido, de que é impossível ofender a natureza com o assassínio.. Enfim, será o assassínio um crime contra a sociedade? Que importa a essa numerosa sociedade um membro a mais ou a menos? Suas leis, seus costumes sofreriam com isso? A morte de um indivíduo influiu alguma vez sobre a massa? Depois da perda da maior das batalhas, direi, depois da extinção da metade do mundo, de sua totalidade, se quiser, o reduzido número dos sobreviventes viria a sofrer qualquer alteração material? Não. A natureza inteira nada sofreria com isso, e o estúpido orgulho dos homens, que acreditam que tudo gira em tomo deles, surpreender-se-ia depois da total destruição da espécie humana ao verificar que nada tinha variado na natureza e que o curso dos astros não seria sequer retardado.. Os homens mais independentes, que mais se aproximam da natureza, os selvagens, entregam-se diariamente à matança. Em Esparta, na Lacedemônia, caçavam-se os dotas, como na França as perdizes. Em Mindanau, quem assassina é considerado bravo e premiado com um turbante; entre os Caraguos é preciso ter matado sete para ser digno de igual prêmio; os habitantes de Bornéo crêem que todos aqueles que por eles tiverem sido assassinados os servirão depois de mortos; os fanáticos espanhóis faziam votos a São Tiago de Compostela de matar doze americanos por dia; no reino de Tanguti escolhia-se um homem forte e vigoroso ao qual era permitido em certos dias do ano matar todos que encontrasse. Haveria povo mais amigo do assassínio que o Judeu? É o que se deduz de todas as páginas de sua história. O imperador e os Mandarins da China tomam medidas para perturbar o povo e utilizam as revoltas como pretexto para cometerem terríveis massacres.. Os assassinatos públicos são permitidos em Gênova, Veneza, Nápoles, Albânia. Em Kachau, os assassinos, vestidos de um modo particular, esganam publicamente os indivíduos que lhes são indicados. Os habitantes da Índia tomam ópio para ganhar coragem e saem pelas ruas massacrando tudo que encontram. Viajantes ingleses dizem o mesmo da Batavia. Que povo foi ao mesmo tempo maior e mais cruel do que os romanos e que nação conservou por mais tempo seu esplendor e sua liberdade? O espetáculo dos gladiadores provocava-lhes coragem; tornavam-se guerreiros pelo hábito de fazer da matança um brinquedo; mil e duzentas a mil e quinhentas vítimas diárias enchiam o circo. As mulheres, mais cruéis que os homens, exigiam que os moribundos caíssem com graça nas convulsões da agonia. Os romanos passaram daí a outros prazeres, tais como o de verem anões que se entre-matavam.. Outras nações ainda mais ferozes imolavam crianças e isso fazia parte de suas leis. Povos selvagens matam os recém-nascidos e freqüentemente, seus próprios filhos; esses atos, comuns em todo universo, em alguns casos são incluídos nos códigos de leis desses povos. Nas margens do Orenoco, as mães matam as filhas para que não se casem com selvagens dessa região. Na Trapobana e no Reino de Sopite, as crianças disformes eram imoladas pelos pais. Em Madagascar as crianças nascidas em certos dias da semana eram lançadas às feras. Nas repúblicas da Grécia eram imoladas as crianças não suficientemente fortes para um dia defenderem a república.. Até a mudança da sede do Império, todos os romanos que não queriam alimentar seus filhos jogavam-nos fora. Os antigos legisladores abandonavam à morte as crianças; nenhum código reprimia os direitos que o pai se arrogava sobre a família. Aristóteles aconselhava o aborto.. Em todas as cidades chinesas, encontram-se cada manhã uma quantidade de crianças abandonadas pelas ruas; são jogadas numa carroça e depois numa fossa; muitas parteiras ajudam as mães afogando recém nascidos em tinas de água fervendo ou jogando-os ao rio. Em Pequim, são colocadas em cestinhos que se abandona nos canais; o famoso explorador Duhalde calcula em mais de trinta mil o número de corpos encontrados em cada limpeza desses canais." [Sade - A Filosofia na Alcova]
Smith confirma os hábitos dos antigos chineses:
"O casamento é estimulado na China, não porque ter filhos represente algum proveito, mas pela liberdade que se tem de eliminá-los. Em todas as grandes cidades, várias crianças são abandonadas toda noite na rua, ou afogadas na água como filhotes de animais. Afirma-se até que eliminar crianças é uma profissão reconhecida, cujo desempenho assegura a subsistência de certos cidadãos." [Adam Smith - A riqueza das Nações, Livro 1, Capítulo 8]
*Eu irei ampliar o conteúdo desta postagem.
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