quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Mundo sem Valor

"A criança estende suas mãos no ávido desejo de trazer para si todos esses objetos tão estranhos e tão diversos que vê diante de si; tudo isso a encanta, pois seus sentidos ainda estão bem jovens e frescos. O mesmo ocorre, porém com mais energia, em relação ao jovem, que também se encanta com o mundo de cores brilhantes e de figuras múltiplas. Sua imaginação lhe atribui imediatamente mais valor do que o mundo jamais poderia oferecer. Assim, a juventude está repleta de anseios e de aspirações por algo vago e indefinido; e isso lhe proíbe esse repouso sem o qual não há felicidade. Desse modo, enquanto o jovem imagina que o mundo tem muitas maravilhas a oferecer, bastando apenas encontrá-las, o ancião está convencido, juntamente com Eclesiastes, de que tudo é vaidade, e sabe que todas as nozes são vazias, mesmo que brilhem como ouro.. Somente em sua velhice o homem chega plenamente ao nil admirari [não se admirar de nada] de Horácio, isto é, à convicção imediata, sincera e firme da vaidade de todas as coisas e da vacuidade de todas as pompas do mundo. As quimeras desapareceram e não nos enganamos com a ilusão de que reside em alguma parte, no palácio ou na cabana, uma felicidade especial maior que aquela da qual desfrutamos sempre que estivemos livres de toda dor física ou moral. Já não existem mais as distinções mundanas entre o grande e o pequeno, entre o nobre e o vil. Isso dá ao ancião uma tranquilidade particular de ânimo que lhe permite observar com um sorriso as fantasmagorias deste mundo. Está completamente desiludido, e sabe que a vida humana, faça-se o que se fizer para decorá-la ou enfeitá-la, não tarda em revelar, em meio a esses ouropéis, sua natureza árida e miserável. Faça-se o que se fizer para pintá-la e adorná-la, sempre foi e será essencialmente a mesma coisa, uma existência cujo valor real deve ser calculado pela ausência das dores e não pela presença dos prazeres, e ainda menos da pompa e do fausto (Horácio, Epistolae, I. 12. 1–4). O traço fundamental e característico da velhice é a desilusão; desapareceram as ilusões que até então davam à vida seu encanto e à atividade seu aguilhão. Reconhecemos o nada e a vaidade de todas as magnificências deste mundo, especialmente da pompa, do brilho e do esplendor das grandezas. Compreendemos a insignificância do que há no fundo de quase todas essas coisas que se deseja e desses prazeres a que se aspira; e chegamos assim, pouco a pouco, a convencer-nos da pobreza e do vazio da existência." [A. Schopenhauer]

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